Mostrando postagens com marcador Trechos contos e textos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Trechos contos e textos. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 11 de abril de 2024

Queira, sobretudo, deixar a si

 Por caminhos tortos minha mente vagueia entre depressões e outras tristezas. Dizem que sou distímico, que meu ritmo emocional é lento e vagaroso, marcado pela autodepreciação que se transveste de culpa cristã. Fere a si para não ferir aos outros, mentira, fere a si para assim ferir mais profundamente o outro.

A faca especular que me atravessa atinge outrem-mim, assassinato em primeiro grau, planejado e com requintes de crueldade. Mesmo esse texto, acusatório, participa do fetiche sádico travestido de masoquismo. Deleuze separa sadismo e masoquismo por que nunca teve uma sessão de autotortura sexual bem feita. Sua molecularidade era desculpa pra não precisar dar o rabo.

Por fim, escrevi para obter um alívio nesse universo semiárido de minha cabeça.

Alimento pequenas esperanças, construo sobretudo mini-amores, como se minha vida pudesse ser constituída de uma polivocidade de línguas. No fim, submeto-me ao mesmo tédio que habita sempre meu coração. 

domingo, 29 de dezembro de 2019

Vendo se dá

Quando se olha para dentro, o corpo faz uma torção. A rotação do pescoço não é suficiente, e temos acesso lateral, no horizonte indecifrável, do pouco que de nós podemos vislumbrar. O que vemos é pouco, rarefeito. O olhar arrasta em si uma dose de esforço, de tendões estendidos, cordas afinadas que quase rebentam. Não é fácil.

Olhar no espelho é simples. Mas tudo ali, ao revés, subtende as reviravoltas da carne espessa, e o que vemos é um outro que, inerte, também olha, e pouco vê. Refugiar-se no comum, talvez, se sobressaia como solução mais tranquila.

Assim, frente a impossibilidade da nudez completa, de completar-se em um pleno ver-se-vendo, o outro é uma solução arriscada e simples. Mas há um desencontro, uma refração quando minha imagem retorna desse meio, e o que vejo está desconjuntado, turvo. Vejo-me por outro angulo, que também sou, sem ser. Sou parte do que me dão, me determino sob o jugo de olhares cruéis, solícitos.

Talvez a imagem mais real de mim seja o limite máximo daquela torção, quando transparecem dois narizes oscilantes, fugidios, nessas sombras que indicam ter mais para além do que vejo, e que talvez nunca terei acesso direto. Nosso verdadeiro inconsciente está diante de nossos olhos.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Epitáfio a um pinguim 2


Jaz aqui, retinto, alguém que esperou, suspirou e morreu. Falecido porém insatisfeito, pronto a querer renascer das suas cinzas em Shiva, que lhe permita, oh! Deus, que lhe permita!

Saibas que, no âmago dessa união recíproca entre minha vida e a tua, só nos resta tornarmo-nos um. Dissolver a relação nessa unidade inerte, não-tensa...

O contato com o absurdo fez-me perder a graça de qualquer outra coisa que não seja superação... porém, diante da intrigante verdade de que não sou puro transcender, que, como todos, estou afogado no Mesmo, não tenho o que respirar...

História sem corda



Sinto que o tempo passa e eu persisto. Manter-se não é algo de se orgulhar. É sobreviver, mesmo se não há a opção para seguir. Caminhar com o Tempo, isso é digno. Assumir que ao virar uma esquina, após tomar um refrigerante e comer dois salgados, acompanhados daquela paz que oculta o cansaço do cotidiano, um metal ovalado atravessa seu caminho. Aí ele segue, e é você quem fica. Vira passado. Ser passado é inexistência presente. Ter passado é nostalgia.
Quando era criança, me orgulhava de resistir ao calor do asfalto. A grossa palma dos pés mantinham-se sobre o solo quente de Ribeirão Preto em Janeiro. Às vezes era preciso correr, mas quando ficava ali, parado, percebia que aquilo subia-me pelos pés mas não me incomodava – eu era um herói, sobre-humano.
Tenho passado, mas agora persisto. Algo rompe a linha histórica, vê-se um campo nebuloso onde nada que possui grande sanidade penetra. Depois disso, eu. Ali, a contar.
Um, dois, três. Lembro-me de meu reino. Centenas de miniaturas formavam famílias, possuíam casa e função. Todos sob um governo forte, centralizado pelo meu alter-ego. Acho que na verdade eu não era o governo. Sempre tive vocação para ser Deus. Animava o plástico, e dizia: “Do polímero vieste, ao polímero voltarás”. E nesse meio termo viviam. Os velhos vidros de esmalte de minha mãe: feiticeiras e magos representavam aquela pressa de resolver-se tudo rápido – o mundo salvo a cada tarde. Assim me sacrifiquei, e na divina posição persisto.
Só há dois problemas na perfeição. Sua solidão e sua inexistência. Há também sua finitude, pois o clímax é o início do fim. Fim, que fim? Só persisto.
Se houvesse um relógio de pêndulo em casa, teria jogado tal criatura aos ventos pela janela até o quintal. Seu ir e vir, Tic-tac, 1, 2, 3, 4, 5... contar, contar para quê? Se ainda soubesse o que me move a contemplar, parado, a observar todos passando, com seus carros, em seus dramas de chegar do trabalho prontos para falarem de seus dias, ou não. Olhando e contando, 4, 5, 6,... tic-tac, tempo passa e eu persisto. Todos passam por mim, cumprimentam, vão, vem outros, que também passam, dão bom dia e eu respondo “hum-hum”.
Nas aulas de biologia, via quem eu era. A luz atingia meus fotorreceptores, abriam-se canais de sódio, e lá ia um impulso pelo nervo óptico para minha nuca, saía pela esquerda, passava pela minha orelha e unia-se a um pulso elétrico dizendo “Bom dia, como vai?”. Daí era só seguir mais um pouco, para e dizer “hum-hum!”.
Era dono de mim, de minha vida, meu corpo, contemplava – sabia o porquê. Cogito ergo sun! Fotorreceptores, 5, 6, 7, 8, cóclea tic-tac, faringe hum-hum! Tudo em seu lugar, ritmado e ordenado, exaltados por serem donos de si!
Mantinha os pés no asfalto. Ali, brincando sem me preocupar de ir em casa, para um fútil chinelo de dedo. No máximo, as caridosas árvores cediam-me suas sombras para que eu esperasse um pouco e respirasse. Inspira, expira, 6, 7, 8,...
Já tenho vários pôr-do-sol. Todos os têm. Mas poucos os vêem. Já vi alguns. Laranjas, vermelhos, rosas, o céu numa variação de azul-claro ao marinho. Vi também seus extremos, o nascimento de esferas amarelas gigantes. Podia vê-la sem ter que desviar os olhos. Acho que sempre desafiei o Sol. Um Deus de derivados petrolíferos não deve teme-lo, a não ser que derreta sua criação.
Fazia questão de montar uma cidade inteira, pôr todos os personagens. O protagonista era pequeno, laranja, com orelhas de urso carcomidas e pequenas, olhos alegres. Fiz-lhe uma voz infantil, frágil porém destemida. Ele não estava só, uma pequena gata, cor-de-rosa, de voz meiga era sua namorada. Ela rapidamente se foi. Todos se foram. Persisto.
O interessante de persistir é que o tempo não passa para nós. Ele nos abandona, e acompanha aqueles que estão ocupados demais para percebê-lo.
O devir temporal encontra-se quando seu primo aparece em sua casa, usando uma roupa de abrigo que você reconhece como sua. E ele é 10 anos mais novo... De repente achamos uma foto onde sua pele lisa, cabelos desarrumados e roupa suja de barro se mostram e você nem se lembra de quando foi; 8, 9, tic-tac...
Minha vó possuía três relógios no quarto (tic-tac)3. Dois foram parar na cozinha, do outro lado da sala, numa noite em que dormia lá. O tempo me irrita. Tira toda novidade do mundo, pois olho, vejo, é só tic-tac, ele lá, me olhando, distante, com suas longas barbas brancas pelo chão. A sua córnea esbranquiçada não me permite distinguir o quanto seus olhos eram azuis. A raiz amarelada do cabelo, o que sobrou dele misturado às longas barbas, eram consoantes com a cor das unhas desgastadas. Já não sorria mais. Só me olhava a balançar o cajado, pastoreando o mundo a contar. 10, 9, 8, 7... E eu daqui também enumerava 8, 9, 10. Persisto.


Publicado no Livro Poeta de Gaveta, vol. 10

Olhai o céu



Naquela sala, a luz tênue que entrava pela fresta da janela iluminava todo o ambiente. Haviam poucos móveis a interromper tais ondas luminosas; apenas uma cama, uma pequena cômoda com toda uma vidraria de perfumes, que transformavam a parede em um grande vitral colorido, refletindo as tendências religiosas da cruz que se sobrepunha e guardava o ambiente. E, atingido indiretamente pelas cores da perfumaria, estava um grande espelho emoldurado rusticamente, mas suavizado em sua dureza pela perfeição das imagens que projetava.
Ao entrar em seu quarto, ela esbarrara na porta, esta abrindo suavamente e aumentando a luz no ambiente. Fechou-a, de modo que toda a clarividência sobre a sala manteve-se restrita ao facho da janela, trazendo de volta o vitral antes sobreposto por aquela luminosidade.
Parou em frente ao espelho. Com um simples toque, soltou a toalha que cobria seu corpo nu. Pelo grande espelho, ela pôde visualizar mais plenamente seu belo corpo. A pele alva de sua face enrubesceu levemente, exibindo o pudor de sua rígida educação. Passou as mãos por sua barriga, levou-a a seus seios, massageando vagarosamente em busca de algo escondido. Como não encontrou nada além do familiar, respirou.
Na cômoda pegou um frasco, o abriu e passou seu conteúdo pelo corpo, emanando um característico odor de rosas pelo quarto. Massageava os ombros, levando as mãos pelo pescoço; logo desceu pela barriga e tentou alcançar a região mais extrema de suas costas. Braços, seios, cintura, nádegas. Aos poucos o creme se esvaía de suas mãos pelo seu corpo, indo até o interior das coxas.
Toda a massagem diminuía as tensões corporais, gerando, além da paz após a luta diária, prazer. Era impossível negar todo o prazer que tal ato produzia. Aproximava-se receosamente de seu púbis, o que lhe aumentava agradavelmente as sensações. Conduzida então por seus instintos, alcançou-o.
Em simples movimentos, deitou-se. Passou a se sentir bem, dona de si. Seus pequenos pés estavam esticados. Acariciavam-se mutuamente, em auto aceitação, cumprimentando-se como qualquer casal faria. Acompanhando o brilho da base das unhas, a fina tornozeleira cintilava devido à luz da janela, como se fosse um pequeno vitral dourado, de luzes rítmicas concorrendo com o grande vitral de perfumes.
Os olhos negros, que antes se duplicavam no espelho em imensos fossos misteriosos, agora estavam fechados. Percebia a tênue luz avermelhada, como um mundo todo realizado em sangue e pele, de luzes alegres em intensas variações, um dinamismo pertinente a tal ato. Os finos fios de cabelos negros espalhavam-se pela cama, entregando-se às rendas brancas do lençol.
Porém, em pouco tempo, a aparente calma foi substituída pela coerência entre o que sentia e sua carne. Os músculos passaram a se contrair em ritmo constante. Os lábios inferiores foram repreendidos pelos dentes; o pescoço passou a jogar a cabeça para trás e os cabelos, antes misturados à renda começaram a se mover, formando ondas energéticas de grande amplitude.
Os braços esticados passaram a se contrair, lutando contra sua intenção viva, sofrendo assim paralisias devido à rigidez. E os pensamentos, antes quase que suspensos, virou a sua face para a grande cruz, misturada às cores do vitral, e assim temeu por sua liberdade. Em parcos minutos, um gemido brando libertou os lábios de seu cárcere. Havia chegado ao clímax, aonde seus impulsos se contradiziam com seu pudor e regra moral.
Sentiu-se culpada.
O clima externo à sala era calmo. Lá fora, o céu azul cobria todas as regiões, mas as nuvens ainda mantinham sua fixa posição. Mas a ira divina sempre impõe dinâmica de sua criação. As nuvens foram destituídas de seu lugar, as folhas voaram e tudo se moveu. De repente, a fresta na janela transformou-se em uma grande corrente luminosa e atingira o corpo deitado na cama, em êxtase. Havia sido descoberta pelo céu. E uma nuvem tampou o sol; uma rala sombra a encobriu.
Levantou-se rapidamente e fechou a janela. Coberta agora pela grande escuridão, ficara só. O vitral se desvaneceu, o rosto de Jesus fechou-se. Não havia mais nada na sala, além do Nada.
Entretanto, um simples ponto, uma imperfeição na janela deixou que apenas um feixe de luz entrasse. Este se refletiu no espelho e atingiu um frasco, e seu líquido azul transformou-o em um límpido céu, sem nuvens, livre...

Carne da palavra


A boca, genitália inútil, busca, nos entremeios de seus verbos as saliências dos versos incrustados na grossa crosta de suas pernas em puídas calças de brim azul.

Não há Nada, além do ácido suor a desgostar a língua, e a pujança dos léxicos em suas coxas finamente delineadas, pronta a titubear mesmo a prosa luciferina, carne mesma dos caninos a brincar de vampirismo nas incisivas marcas em minhas costas.

E, no encontro de músculos incansáveis, a obtusa gramática sem rodeios, percorre os veios pálidos pela nicotina das eternas desculpas recitadas no espelho. Me dá um cigarro, louva o poeta e clama a boca, cuspindo a outra um escarro em centenas de lancinantes adjetivos, penetrando e perfazendo pérfidas personificações pertinentes a perversidade da al-cunha atroz, lábil e conundente de língua.

Sexo oral é redundância.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Carência do espírito. Tombamento da alma.

da série Vanitas, Fernando Vicente.


O corpo e o Verme, sozinhos, comentam cotidianamente os restos na superfície. Prazeres, o Verme proclama; e come. São saliências de sua conduta, falta de pudores. O corpo, tímido, afunda-se entre flores, protege-se com véus. Faz-se de difícil às persuasões do Verme, estando quase inebriado com seu sorriso faceiro e malandro.

Cede. Perpetram-se os antigos desejos, carcomem-se sonhos e digerem-se memórias. Sobram os cabelos, dizem, mas quanto tempo esse resistiria às vicissitudes da moda?

Enfastiado, o Verme deita-se ao lado de seus restos. Arrota satisfações fúteis, comenta do tempo, olha de soslaio o sorriso eterno que deixou estampado ao lado. Felicita-se por sua onipotência e escorrega por aí. Nem telefone, ao menos carícias matutinas. Somente rasteja-se à espera de novos apetites.


Já não nos dissecam como antigamente.


13/03/2008

Insano é o sacerdócio o corpo.

Os olhos observam as mãos tremulantes, distanciando e aproximando, lenta e em ritmo, sob a respiração profunda. Sobrevoa o espírito, insosso, por entre delírios egocêntricos. Esse masoquismo auto-infligido, tão comum, repete-se como chibatadas que nunca cicatrizam, abrindo as costas em um novo mapa hidrográfico, que verte da nascente à foz a essência última do grito, agora já emudecido. Como goza o corpo, se caminha ao fim? Se ele mesmo apressa-se nesse caminho tortuoso de destino certo?

Não sei. Nesse solfejo de minha dor, cada inspiração e sua concomitante expiração é entoada em seu tom específico. A primeira, é marcada pela árdua tarefa do diafragma, Atlas que sustenta essa gaita de um só fole. A segunda, ganha deveras em sua melodia uma nota de alívio, mas este só reforça a frustração, a insatisfação de uma música que outorga a si própria. O ritmo lento, oscilante, conjuga-se a um timbre tímido, por entre os lábios, esmaecendo-lhes as poucas palavras que ainda lhe brotariam.

******************************

Você se ilude com a verdade. Como em um espelho, vê uma inversão de seus erros, de suas frias batalhas, em glórias natimortas, pequenos orgulhos que lhe servem de troco no comércio cotidiano. Persegue suas listras, ara seu abdomem, semeia infusões que crescem em abaulações, quase rebentam a superfície. Estéril, porém. Nada nasce nesta terra, a não ser uma raiz sempre interna, que se espalha e se dobra sobre si mesma, a ponto que nada mais vê que não seja a si mesmo.




sábado, 11 de abril de 2015

Physis da alma


Saturno devorando seu filho, Goya



Amarro-me atravessado na angústia, prendo-me a universos distintos que rotacionam em sentidos opostos. Cindido ao meio,  eu e eu e eu e eu e outro e outro e outro, e nada, e algo. A relatividade einsteniana é intrigante, pois seu efeito sobre a angústia é tão pungente quanto o que se dá a grandes astros. Quanto mais o peito se torna denso, maior é a distorção de meu espaço-tempo, os ponteiros se lentificam em uma eternidade por segundo, os movimentos transacionais se repelem através de um processo inflacionário que torna-me cada vez mais rarefeito.

Quem dera minh'alma comprimisse nessa dor lancinante, e que dessa singularidade um universo inteiro nascesse sob as regras quânticas de meu tédio?

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Noite e mundo

Nosso humor causa fibrilações no mundo noturno, rearranjando os sons e as tonalidades em um sentido de mistério e perigo. Mas a escuridão da noite já não nos induz a essa estruturação? A indistinção das formas, a labilidade das sombras, cria-se um espectro de mundo, que pouco nos dá. Mas aquilo que o mundo não dá ele demanda do sujeito, e atapeta as frágeis estruturações com o dentro, com a escuridão do inconsciente perceptivo, afetivo, e toda tonalidade pessoal que ali se apresenta.
Se às claras, tudo já ganha a marca do sujeito que as observa, a escuridão revela de forma privilegiada esse mundo sedutor, que incita o sujeito por seus desejos contra sua vontade. O que era de dentro passa  vir de fora.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

O coito de Narciso e Tânatos

    No que diz respeito à acentuação, minha dor é proparoxítona. Não elege ditongos nem terminações específicas. Ela incide exata e errática, ignorando mesmo esse paradoxo que a funda. A dor não percorre um sistema nervoso autônomo: ela é adicta dos fatos cotidianos mesmo à luz diurna, nas microlinhas sensíveis que percorrem os fatos e as lembranças. O passado recorta a vida em fatias grosseiras e difíceis de remontar. Deixa rebarbas, remói as ossaturas, impede que façamos boas próteses para substituir os membros perdidos.
     Regojizo, se assim posso dizer, cada metafísica masoquista, que crio dando nome e substância à minha angústia. A tentativa da soberana Razão em nomear o grito surdo que rompe minha laringe e perfura meus tímpanos, inútil. A dor quintuplicada a cada conceito, que gera no sistema reflexivo redes de ressonância, propagando a dor em uma pretensa universalidade que só se refere a meu corpo obeso, pesado, que oscila lentamente frente à televisão.
     Assim penso, faço neologismos do que “não tem nome nem nunca terá”... Ato de escriba bêbado, sozinho sentado no telhado, mergulhado por ralas estrelas e faróis que viram a esquina, segurando a cachaça já vazia, cujas doses pouco sanaram a desesperada pergunta feita acima do estômago dilatado.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Da violência do ser-no-mundo.

Ambas, sexualidade e agressividade, estão em sintonia pois são movimentos que ressoam a entropia universal. Entretanto, a sexualidade, esta danada, na mistura dos corpos e no imiscuir-se das moléculas de suor, pode, acaso a modernidade permita, produzir um novo ser, uma nova fonte de sintropia temporária, um novo olho de furacão a arrastar, no espaço-tempo, outras vidas em seu movimento alucinante...

Hoje entendo a máxima de Brás Cubas: "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria".

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Gozo das escaras do tédio

A existência zumbinesca do tedioso é circular, na repetição do mesmo. Tal imobilidade temporal, já que carnalmente perdeu a quarta dimensão, na estagnação da diferença, e gera  escaras no tecido carnal, feridas de pura dor e gozo. O gozo do tédio é o fechamento cíclico de sua órbita sem centro, é manutenção de seu movimento em atrator estranho, e finalmente fecha o indivíduo na ausência da morte. Não que este é imortal, mas sua vivência, presa ao instante, perde a passagem do tempo e, sem sofrer da finitude, sem necessitar se defender dela (o que constituiria uma vida inautêntica ao menos), acaba solto no espaço-tempo, uma mônada em puro excesso ou falta de si, desprendida do tecido do Fora. Não se torna errante, como as rápidas multiplicidades que atravessam o tecido carnal e obrigam-no a costurar-se constantemente, mas habitam-na sem paixão nem terror, sem ódio nem violência. uma existência cujo termo "pacato" adquire extensão exorbitante.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Trecho

Por preguiça, acabo escrevendo trechos inconclusos, abandonados por entre anotações empoeiradas, que se perdem afetivamente de minha memória. Bom, talvez colocá-los aqui seja uma forma de ressurreição...

"Foi a gota d'água - que transbordou das pálpebras manchando as nítidas lembranças em míríades de dores distorcidas, curvilíneas. As lágrimas são minúsculas tempestades, lubrificam a pressão dos olhos e rosto, tanto na difícil tarefa de conter os dilúvios de nosso coração estraçalhado, quanto parcelas das corredeiras que se formam com o fim da pressão, com a queda da última resistência do corpo" ...


sábado, 16 de junho de 2012

O sacrifício do Pinguim

Pinguins só vivem nesse reino capitalista quando podem ser empregados pela máquina burocrática. Se o desemprego bate-lhe nas costas e o coloca "no gelo", o corpo apenas suspira, aceita, e vai trabalhar suas 12 horas diárias.

In Afecto

Para Alice


“E como não,
e por que não dizer que o mundo
respirava mais se ela apertava assim.”

Oswaldo Montenegro, Bandolins



Em teu corpo soçobrou minh’alma inútil, com sua estúpida falta de matéria. De pouco serviram os sermões dominicais; Vieira ainda dava-me esperanças, mas teu mel... o mel de teus seios, a saliva de tuas ancas, nada, nada poderia conter o desastre de meu espírito.

Pouco - no torpor desse tufão, restaram-me apenas alguns aforismos niilistas, centavos de retórica e um, apenas um grão de lógica, pois era ele que conseguia por si só relembrar-me, nas noites em que não passava debulhando oniricamente seu corpo, de ir ao botequim, embebedando em outras feminilidades, sentindo outros calores, numa estranha felicidade pós-cortiça e passageira.

Chamegava meu queixo, eriçava-me os pêlos. Esvaziava meu peito inchado com olhar de esguelha, matreiro. Deixava a alça do vestido pouco frouxa. Transparecia opaca. Tão opaca, tão retinta, soltava os cabelos... Os cabelos. Aprisionado, horas a fio, fio a fio, ficava em carícias. Contava-os, numerava, em histórias de uma infância apagada, distante.

Fiz café, levei-o às sedas de tua cama, servi-te apenas de cuecas, fumei na janela inspirando sua imagem a bebericar, repassar os dedos pela borda, esboçar sorriso de lembranças fugidias. Casava! Jurava ao padre suas ladainhas, fazia sinal da cruz, a teria em núpcias como se nunca houvesse visitado suas intimidades. Riu de meus planos como juvenis, apontou meus quarenta e tantos, diagnosticou-me apenas uma paixonite, cura fácil, mais uns goles e pronto!

Foram-se garrafas, noites. O café esfriou, esperei. Um estivador qualquer, um outro suor, foi-te levada por sei lá que odor mais atrativo. Simplesmente disse adeus, dito nas entrelinhas da vidente borra que me deixavas na pia.

Sem alma, era somente coração. E estômago. Restou-me o último, a digerir, junto com petiscos e álcool, as poucas marcas de suas unhas na minha pele. Com o tempo, foi embora seu cheiro, o gosto de hortelã em meus lábios, o vigor do peito orgulhoso. Somente a bílis denunciava movimento, reclamava alguma ação. De resto, do resto, só digeria.

Pouco tenho a dizer.

As palavras parecem desmentir por sua recorrência exacerbada, mas não há muito o que dizer.

Sinto que a única coisa que valeria a pena dizer, se encontra no meu estômago. Lá estão minhas alegrias e tristezas, um não-sei-o-que que me diz algo no vazio, vazio cheio de absolutos possíveis em sua incrível densidade.

Para ser mais exato, é o aleph entre duas bocas que compartilham uma respiração tântrica, é o espaço entre a mão e o corpo que toca, entre os campos negativos de seus elétrons, é o que toca, mas ao tocar, não toca, passa de um ao outro e deixa de ser apenas um e outro, mas meu corpo no outro, outro corpo no meu.

Não é silêncio: É o desespero mudo por não tocar, por não se unir, desejo sóbrio de um bêbado frente ao bar, que quer entrar... mas como?

Mas como? ? ?

?

por que? não encosta, não pego, pois se pego, não há mais eu nem nada, mas sim uma mistura eu-outro-folha-casa-pátria-mundo-fatia de pão mofada à espera de...

Frase perdida

O contato entre as mãos, essas membranas semipermeáveis, essa distância irremediável entre dois seres, esse fracasso da fusão entre dois corpos, é compensado pelo suor que lubrifica e imiscui as substâncias em uma área comum, de trégua e de guerra...

terça-feira, 12 de junho de 2012

Trecho: Serotoninas minhas

     Sofro, "pero no mucho". Sofro a medida dos fracos, em doses homeopáticas distribuídas durante o dia vide bula. Sofrimento fantástico, daqueles que alternam desculpas e se arremedam uns aos outros... o que se repete, sempre diferente, para não se habituar de hábitos já feitos, para diversificar a vida pública, para complementar o gozo...
     Ora, temos vergonha da felicidade mundana e gratuita, como pode-se nos dias burocráticos de hoje ser feliz por mero capricho hormonal? Há uma cota de sofrimento a ser paga, uma justificativa que valorize cada regojizo. Pago minha dívida, recolho os centavos em balas e as mastigo amargas e pungentes. Retiro o extrato bancário de meus lucros agonizantes, planejo o jogo astuto das altas e baixas do mercado, calculo milimetricamente os ganhos, e reverto as perdas em novos merecimentos.
       Capitalizar a dor, torná-la moeda negociável frente o excesso de culpa que a vida atribui aos fracos - essa administração é necessária à sobrevivência. 

     

quinta-feira, 22 de março de 2012

Caos

Podemos viver o caos, vivenciá-lo em seu devir, mas nunca representá-lo, apreendê-lo pela consciência. Todo caos se organiza em padrões, a vida possui padrões inquestionáveis, mas nem sempre determinados. Nossa relação se dá com um mundo prenhe em organização, e por isso possui um horizonte de caos.