sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

A forja

Fossils (black), Mohau Modisakeng - África do Sul
http://www.mohaumodisakengstudio.com

"Me deixem cantar até o fim"
Elza Soares
A mulher do fim do mundo


No corpo incandescente
A vida martela cada curva e marca,
Incessante,
A letra ainda vazia de meu grito áspero.

Dúvidas e dádivas que me corroeram
Sempre ali, onde escorreu o viscoso líquido vermelho
E enferrujou minha alma.
O bumbo surdo do martelo me fundiu
Me refez a cada nota, minuciosamente calculado -
Cada prego, cada destino, cada nota, cada lágrima.

Dizem que o samba é triste,
Dizem que a vida é triste.
A vida é samba,
A tristeza, quando samba, se contradiz
E retumba cada batida com as do peito
Na sincronia que nos dá força
e na melodia de que somos feitos.

No calor dessa forja,
Onde perco minha forma,
Liquefaço meus sentidos.
Se evapora minha lágrima
Fica o sal, me torno mar:
Persisto além do horizonte,
Sobrevivo.