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quinta-feira, 11 de abril de 2024

Akira

 


Vi Akira há muito tempo. Achei um filme ótimo, mas não conseguia entender nada. Só depois foi que assisti Evangelion e, agora, muito tempo depois, ao rever o filme creio que ele se tornou mais acessível. Ambo são animes que fazem inúmeras referências científicas, psicológias e até religiosas, no caso de Akira, isso é mais brando, mas você pode intuir alguma coisa. 

Parece que a mentalidade oriental se mostrou aberta a uma nova posição dada pela física quântica, e que a mentalidade americana não conseguiu acessar. 

Um dos grandes apontamentos da física é o fato de como a observação interfere no fenômeno físico observado. Eles intuem disso que o papel da consciência (enquanto absoluta vontade) poderia influenciar o mundo físico. Essa noção de consciência não está clara para mim, mas talvez um exame da Psicologia tal como ela se desenvolve nos Estados Unidos pode nos esclarecer um pouco. Principalmente o que acontece com a Psicanálise, quando ela chega no país. 

A influência de Ana Freud e sua pesquisa sobre o ego fez com que inúmeros de seus seguidores desenvolvessem teorias que reforçam o papel do ego na formação de nossa personalidade, como a Psicologia do Ego e a Psicologia do Self. Outras correntes de terapia desenvolvidas, como a Humanista de Rogers ou a Gestaltterapia de Pers, reforçam a conscienização como uma forma de crescimento do sujeito.


Mesmo em muitas teorias orientais, a ampliação da consciência é o foco, buscando a união com o Cosmo. O Caos das forças inconscientes perde a força, e é considerado como um berço selvagem, impossível de doutrinar e, assim, de conhecer. 


Evangelion e Akira mostram, nessa linguagem quântica, na qual físico, biológico e psíquico se mesclam de formas nunca antes pensadas, o caos das forças inconscientes que promovem a vida.


Akira é mais que uma pessoa, mas um princípio cósmico que atravessa a todos, e que, quando desperta no homem, lhe dá poderes sobrenaturais. Entretanto, é difícil e custoso ao organismo obter o controle dessa força. Akira assemelha-se tanto ao impulso de Vida, Eros, que visa a união e tudo em uma unidade maior, quanto ao impulso de morte, já que a união do si mesmo em uma unidade maior é a destruição da individualidade.


O princípio dualista de Freud acaba surgindo de uma unidade anterior, o que quebra a ideia dialética.


Mudando de assunto, a ideia de que há forças pré-pessoais que nos comandam é algo que atravessa o pensamento humano, que vê, talvez, um universo acontecimentos e de fatalidades dos quais não possui controle nem compreensão. vê que não é dono de si. 


Há teorias, como a de Foucault e a de Deleuze, que fala não da Unidade, nem da Dualidade, mas da Multiplicidade. O múltiplo não é o um, nem o dois, nem o três, que recai na dialética. A multiplicidade garante a existência como um eterno combate, que não possui lados.

sábado, 16 de maio de 2015

Persona - Bergman


O silêncio de alguém é a tela em branco onde inscrevem nossas agonias. Mas isso só ocorre até o momento no qual se requer o outro.

Mas então o que restou deste, se nele depositei meu eu?

Assim, tenta-se desesperadamente incorporar novamente esse outro materno e etéreo, como aquele acariciado pelo menino no início e no fim do filme. Um eu-mundo, por onde caminho mas que nunca pode me completar. Termina-se sem eu, sem outro, sem nós, ficando somente o mar eterno, as bochechas umedecidas pelo desespero do Mundo ao qual me misturo.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Todos buscam sua Montanha Sagrada

"A montanha Sagrada", filme de Alejandro Jodorowsky

Minha montanha está invertida, submersa. Como um iceberg, ela se projeta nas profundezas do Real, dos encontros retumbantes, das composições desconexas, das associações livres. Peco, sem dúvida, pela lógica sombria que me conduz ao sentido, na busca de uma frágil proteção contra as dores do mundo. O Mundo, esse grande clitóris, estimula-se até que as ondas prazerosas se rompam em pungentes dores. No Excesso do signo, goza a mente humana de sua capacidade simbólica, mas somente depara-se com a fugacidade dos poucos emblemas que consegue tornar "imortal".

Só aquele que retoma os signos, os recorta, os digere, os torna outro, consegue, com alguma serventia, sempre temporária e efêmera, realizar um encontro pleno, se é que existe alguma Plenitude.

domingo, 25 de maio de 2014

Melancholia (Lars von Trier)



Quando há vida lá fora, o melancólico tem morte dentro de si. Entretanto, quando é a morte que nos rodeia, o melancólico brilha, está sob sua luz azul natural. Já Eros, rodeado de azul, fica absorto na depressão, na angústia da finitude. Jasmine não é diferente de Claire, nem esta daquela, ambas são o que são frente ao mundo que as rodeia. O que parece falta de vida no olhar de Jasmine, no final, que nem consegue se angustiar perante a morte iminente, na verdade é a paz daquela que encontrou finalmente um mundo no qual tudo lhe faz sentido. O Nada é seu mundo, é o que dá sentido ao seu ser. Por isso Melancolia é um Planeta. O depressivo é o estado interno, a química, mas a Melancolia não está no sujeito, mas sim no redor, no ambiente, no gosto de cinza daquilo que se ama, no descolorido das coisas, e na certeza de que o fim é o que nos dá sentido.

Na física quântica, quando matéria e antimatéria se colidem, ambas se destroem, viram pura energia. Se só há vida na Terra, como previu Justine, Ela mesma se identifica com Eros, enquanto Melancolia é seu oposto, Tânatos. Desse encontro, não resta nem vida nem morte... só cinzas...

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Anticristo



Esta cena, uma das mais belas e angustiantes que já vi, explicita para mim a união mais intrínseca e nossa carne em sua mistura agressiva e sexual. Eros e Tânatos, conjugados, em uma série de acasos nada contingenciais, uma evolução que conjuga diversos clímax diferentes em um só momento de que chamamos de acontecimento. Quebram-se as trindade edipianas, desmantelam-se as fantasias e a concreção da vida ganha a profundidade máxima, a opacidade do afeto adquire brilho próprio, e, a partir desse singular momento, o que ocorre é uma abertura, uma marca, um nível, para todo sempre aberto, ao qual tudo sempre se referirá. Este é, no seio do concreto. O surgimento do Real.

Black Swann - Cisne Negro



Esta cena, minúscula no total do filme, que ganha mais destaque que o Lago dos cisnes original, possui a força das profundezas do Ser. Seu destaque se faz porque, sendo gêmeas opostas, sendo impulsos opostos desintegrados, refletem a posição cindida esquizoparanóide, e destaca, no fundo de cada ser humano, reprimido e controlado por nossa sociedade, o impulso destrutivo, agressivo, mortal, que nos conduz ao caos do qual surgimos. Tânatos.

sábado, 12 de março de 2011

Sobre o Documentário Zeitgeist

   

O que significa "perguntar pelo princípio"? a religião é colocada (tanto na defesa quanto na crítica) como algo que fala dos princípios. Ora, enquanto discurso que parte dos homens, o discurso do princípio deve ser compreendido em sua gênese contextual. Dessa forma, o documentário Zeitgeist, em sua ânsia por expôr a gênese de nosso pensamento "cristão" (primeiro filme, primeira parte), não deixa de estar subordinado a um Zeitgeist.

     Incrível uma das falas: "Não queremos ser indelicados, mas temos que ser factuais. Não queremos magoar os sentimentos de ninguém, mas queremos ser academicamente corretos naquilo que compreendemos e sabemos ser verdadeiro. O Cristianismo não é baseado em verdades" (Zeigeist).

     Vejamos as palavras empregadas: há um jogo que classifica o discurso de forma dual e oposta: o fato a verdade, com conhecimento acadêmico, estão opostos ao conhecimento religioso, mítico, falso.

     Ora, o documentário prega uma pureza dos fatos, como se fosse um diamante bruto que a cada passo fosse lapidado e encontrasse assim sua maior proximidade com a Verdade. Mas vemos que vários filósofos e sociólogos já questionam essa noção. Bourdieu, sociólogo francês, dissertou abundantemente sobre as relações de poder no conhecimento acadêmico, e sua relação de classe com o conhecimento operário ou popular. Mais do que encaminhar-se à uma verdade mais plena, o que se vê é um jogo de poder: quem detém o poder detém a verdade. A Igreja, detentora do poder na idade média, sobrepunha-se até ao saber científico. Entretanto, a queda de um foi concomitante à elevação do outro. Hoje, quem é adorada nos templos televisivos é a ciência, como fonte suprema da Verdade.

     "Compreendemos e sabemos ser verdadeiro". Nem o físico quântico tem real conhecimento da amplitude e da verdade de sua teoria, quanto mais uma teoria que se baseia no encadeamento de fatos de diversas culturas, descontextualizando-os e criando uma cadeia lógica. A logicidade de uma história ou de um encadeamento de fatos não é garantia de sua verdade!

     Há aí uma questão sobre o conhecimento e a noção de Verdade. Esse discurso de que "há uma verdade" é semelhante ao da religião. Não há mudanças de discurso entre os cristãos e o documentário. Podemos então encontrar, nos discursos que se colocam libertários, o mesmo jogo de poder. A verdade, a iluminação, o fato, são os novos deuses... Assim, continuamos a cultuar o Sol...

     Deve-se salientar que a crítica ao discurso adotado em Zeitgeist não é uma tentativa de invalidar suas descobertas e defender a verdade cristã... O que se busca é desvendar o movimento que se dá por baixo dos dois, mostrar suas semelhanças, e assim ponderar nossas posições acerca do que é ou não verdadeiro, e até sobre a ideia adotada sobre a verdade.

Realizar uma crítica não é substituir verdades, mas contextualizar discursos, ponderar fatos, pesar seu alcance, e só eliminar aquilo que, após esse exame mais profundo, revelou-se inconsistente.

Uma religião torna-se despropositada quando busca, no discurso científico, encontrar bases que as ratifiquem como verdadeiras. Uma ciênmcia que trata suas descobertas como sendo a verdade suprema das coisas, se esquece da diversidade de pontos de vista, das abordagens possíveis, e assim torna-se divina, perdendo sua objetividade.

Há uma realidade mítica do ser humano, que conta para sua percepção, há um poder de julgamento racional, que lhe permite compreender mais objetivamente os fatos ao redor. Há diálogo entre essas realidades, mas sua compreensão ainda está por ser feita, na minha opinião.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Crítica ao documentário "Quem somos nós"




"o idealismo é também objetivista, no sentido em que objetiva os estados de consciência considerados por ele como a única realidade" (Destouches-Février, citado por Merleau-Ponty, A Natureza).

     Assim, a noção de consciência, tal como é adotada no ocidente, é incapaz de dar conta dos resultados da mecânica quântica. Duas soluções:

- ou Amit Goswani deixa de chamar sua teoria de "monismo idealista", já que sua noção de consciência é oriental;

- ou abole-se a noção de consciência e assume-se que o ser não é auto-consciente, mas identidade na diferença, carne (Merleau-Ponty).

     Outro ponto: 

"Se uma filosofia puder corresponder à mecânica quântica, será uma filosofia mais realista, cuja verdade não será definida em termos transcendentais, e também mais subjetivista. Ao 'Eu penso' universal da filosofia transcendental deve suceder o aspecto situado e encarnado do físico" (Merleau-Ponty, A natureza, p. 156)

Contra o filme "Quem somos nós?"

"A realidade dependeria de nosso arbítrio? Não a realidade, mas a imagem pela qual a entendemos. Não podemos aprender que quer que seja sobre o átomo senão através da experiência; ora, a experiência é uma violação da natureza. Em suma, forçamos o átomo a comunicar-nos as suas qualidades numa língua adaptada" (C. von Weizsäcker - "o mundo visto pela física", citado por Merleau-Ponty, A Natureza, p. 156-7).

     Após esses e outros pontos, conclui-se que a física não pode ser realista (o monismo materialista, como acusa Goswani), pois nunca se coincide com o objeto em si; nem idealista, mas sim um realismo parcial.