Todo homem é livre para matar, só não deve fazê-lo.
O nome do site deriva do termo "Deus ex machina" (Latim: Deus surgido da máquina), que indica o surgimento de algo que, introduzido repentinamente na trama ficcional, amarra as pontas soltas e dá sentido a história.
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
domingo, 30 de outubro de 2011
"Imprudente"
Como falar em prudência em Deleuze... e como não buscar uma reflexão séria de seus conceitos, e evitar cair em banalizações ou em usos indiscriminados... uma filosofia com recomendações... críticas, mas cujos caminhos, múltiplos, não podem diretamente estabelecer seu "bom senso"...
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
Liberdade para se submeter ao que quiser!
Vou ser mais didático nesse post. Mais que isso, serei um tanto burro e distorcido, pois as coisas são bem mais complicadas do que exporei aqui.
Fico abismado, pessoalmente abismado, pela capacidade das pessoas se submeterem irracionalmente a ideais alheios, e se sentirem bem, como se fossem poderosos e vencedores. Compramos brigas por ideais, por crenças, e cada vez mais as superestruturas de poder das empresas capitalistas necessitam de menos esforços para conseguir convencer-nos de que o que ela querem é o que queremos.
Fico abismado, pessoalmente abismado, pela capacidade das pessoas se submeterem irracionalmente a ideais alheios, e se sentirem bem, como se fossem poderosos e vencedores. Compramos brigas por ideais, por crenças, e cada vez mais as superestruturas de poder das empresas capitalistas necessitam de menos esforços para conseguir convencer-nos de que o que ela querem é o que queremos.
Claro, essa indignação não é tão irracional assim, não me coloco de fora dessas influências. Isso faz parte de todo um mal-estar social que há muito penetra em cada sujeito. Mas acho que precisamos de alguns esclarecimentos, a fim de compreender o que se chama "processo de subjetivação", ou seja, como nos tornamos "sujeitos", pessoas que pensam e agem como se fosse por si mesma, por suas próprias decisões. Me desculpem os estudiosos filósofos se os termos estão incorretos, mas esse texto não se dirige a vocês.
Deleuze, filósofo francês, lendo Nietzsche, filósofo alemão, coloca que a vida é composta por forças que conflitam entre si, na afirmação de si mesmo. Seja na sobrevivência do mais forte, seja, no mundo humano, na busca de cada vez mais poder. Ora, em nossa sociedade, é o que vemos: pessoas por cima e pessoas que querem ficar por cima. entretanto, cada um faz isso de forma diferente:
- Ativos: esses agem, atuam no mundo por suas próprias ações, sem que essas "se preocupem" com os "outros", nem para ajudá-los nem para prejudicá-los. Não confundam isso com o "egoísta": não agir conforme os outros não significa fazer coisas que causem mal a esses. quem prejudica o outro, porque quer ou porque está pensando em si mesmo, faz isso porque está a todo momento pensando no outro, no que ele faz de certo ou de errado. Esse é o egoísta, o que mais se preocupa com os outros. O ativo age e, se sua força vai de contra a alguém, não é por não gostar dele nem por querer prejudicá-lo. Pensem nas crianças que estão em um jogo: elas estão preocupadas e ganhar do outro, e cada uma aceita a disputa, estão preocupados com a disputa, e se divertem pela disputa. quando a disputa acaba, não sobram grandes ressentimentos.
- Reativos: esses são os que se afirmam pela negação. são as pessoas que agem mostrando que são bons em oposição a tal pessoa ou instituição. Sempre comparando, sempre se dirigindo aos outros,eles precisam ver a derrota do outro para poder se sentirem campeões.
Claro que não existem dois tipos de pessoas. De certa forma, cada pessoa é um pouco ativo e um pouco reativo ao longo da vida. Não vou ficar aqui falando dos ativos, mas sim daquela parcela reativa que temos em nós.
Para que se sinta melhor que o outro, o reativo tem que buscar o que vê de errado nele, e assim criar um ideal de certo, de bom. Assim nasce a moral e os valores reativos. Isso é errado, isso é ruim... o bom mesmo é ser X!
As empresas, sem o saberem conscientemente, sabem disso. Vejam a Apple: Jobs dizia que em vez de se buscar a necessidade das pessoas, deve-se criar produtos que se tornem necessários. Criar desejos. As pessoas, assumindo o desejo que nunca teve, passa assim a pensar, fazer e valorar segundo modelos que nunca raciocinou, nunca refletiu.
As pessoas, muitas vezes, assumem ideais, crenças, partidos, e papéis sociais, e os defendem com unhas e dentes, mas nunca refletiram o que vêem de "seu" nesses papéis. Por exemplo, pessoas que fazem parte de grupos, empregos, partidos, e sentem emocionadas o quanto suas crenças são melhores e seu valores e seus produtos etc... Acabam por sentirem orgulho de viver em uma nação gloriosa, pertencerem a uma escola de renome...
Assim, vangloriando-se pelo status da instituição. Vem então algumas perguntas:
- Qual é o benefício que essas pessoas possuem com isso?
Vejam, se é o salário, se são bens materiais, se é o status que adquire por um diploma melhor... ao menos, a pessoa está defendendo a si mesma, a sua potência individual. Mas será que defender o quanto a instituição "é a maior/melhor do mundo" é somente uma forma de obter mais benefícios para si? que benefícios seriam esses? O status, o espírito de vitória que a coletividade possui ao defender brigas que não são suas... geralmente, essas instituições estão preocupadas com sua própria sobrevivência, e não hesita de trocar pessoas ou expulsar indivíduos para isso. Mas, enquanto esses ainda estão lá dentro, tais instituições buscam que este defenda seu ideal, o adote enquanto seu? Será que as pessoas conscientemente escolhem isso? e será que essa escolha lhe é benéfica? Será que sua vida depende de uma instituição que nem sempre está preocupada com seus membros?
Assim, podemos perceber que as pessoas acabam por defender o que não é ou nunca foi seu, mas que ganham, em benefício, a fantasia de que são melhores por isso, melhores por estarem com melhores. E agem, assim, reativamente, comprando brigas que na realidade só aumentar a força da instituição, e não a sua própria.
Em grandes instituições, poucos "lucram" com o poder da instituição, o resto é fantasia criada para contentar e convencer os que as defendem.
Se questione:
- O que seu partido fez, direta ou indiretamente, para melhorar seu estilo de vida?
- O que sua empresa fez para que você realize seus desejos, mesmo que estes não incluam a própria empresa (como por exemplo, fazer uma faculdade que melhoraria sua vida e o faria conseguir um emprego melhor FORA da instituição???)
ISSO NÃO É EGOÍSMO, PENSAR EM SI NÃO É DEIXAR DE PENSAR NOS OUTROS. AS INSTITUIÇÃO NÃO SÃO "OUTROS", SÃO MAQUINAS DE LUCRO. OUTROS SÃO AS PESSOAS AO SEU REDOR.
Obrigado pela atenção
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
A questão do ídolo
Steve Jobs faleceu. Assunto abundantemente comentado, explorado e vendido. Até aí, tudo em sua normalidade. Entretanto, quem era Jobs? Criador de uma empresa de tecnologia, criou produtos que direcionaram o mercado e ainda mais, que criaram tendências, geraram novas necessidades, criaram seu mercado?
A máxima de Jobs era a de que a empresa tinha que guiar o rebanho de consumidores. Entretanto, o que ele fez foi somente tornar público algo que já está na essência do capitalismo. Frente à concorrência, muitos produtos precisam reinventar necessidades.
O ramos de produtos químicos para o cotidiano deixa transparecer cada vez mais essa "necessitação" do supérfluo. Desde Pasteur, a teoria microbiológica da doença, embora não mais generalizada, é fundamento para uma reação higienista cultural, baseando-se na construção cultural do asco (social, mas também psíquica). Assim, cada vez mais (principalmente agora que, pelo menos no Brasil, vê-se a propagação do "politicamente correto" e "ambientalmente correto" enquanto qualidades rentáveis através do consumo) se vê surgirem produtos com "algo a mais que os outros", o que o torna sempre mais eficiente. Isso chega ao paradoxo de a mesma empresa e até a mesma marca lançarem quase que simultaneamente produtos que negam outro, como uma concorrência interna.
Bem, assim, mesmo que seja mais que "aumentar funções", o que a Apple faz é criar. Criar o supérfluo, agregar mais ao vazio, recriar nossa relação com a tecnologia. Não que não haja aí uma positividade, uma relação criativa entre as necessidades da população e o produto criado. Mas ainda sim o que se vê é a abertura de novos nichos de vazio, uma ressignificação, uma supersignização, uma sobrevalorização de algo que é, em essência, dentro das tendências naturais da tecnologia, seu devir próximo.
Assim, há mais na Apple, há nela Jobs, e sua figura pessoal como emblema de algo cultural. enquanto as outras empresas criam produtos e deixam que suas qualidades tornem-se, lentamente, necessárias (como a Microsoft, cujo mentor não possui o mesmo impacto pessoal que seu rival, mas que dominou por muito tempo a mentalidade computacional - mesmo que com produtos não tão ágeis e consistentes).
Os lançamentos da Microsoft se vinculam mais a empresa que ao mentor. Foram produtos que se tornaram necessários para muitos através de uma lenta dominação. já na Apple, cada novidade é previamente enunciada, tornada mistério, tratada como sagrada, e ainda mais, vinculada a um mentor, alguém que veio iluminar a massa cega com novidades.
Ora, a isso podemos denominar "ídolo", ou seja, a materialização de uma série de processos sociais de dominação na figura de um mentor, como emblema de uma maquinaria que em seu íntimo extravasa seu gênio. Claro que o emblema não é aleatório, mas tem relação direta com o que simboliza. Jobs, segundo uma antiga reportagem (creio que da folha), associa seu nome a inúmeras patentes, sem ter participado diretamente de todas elas.
Mesmo sendo um intelecto ou uma personalidade única, o ídolo não é "individual", mas uma produção, o umbigo de uma maquinaria cultural de afirmação e subjetivação. Sem Jobs, talvez ainda teríamos ipads, ipods, etc, mas esses teriam um processo de crescimento e morte muito mais lentos, seguiriam outros caminhos.
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
O carater obsessivo como defesa frente a fascinação da perda de si
A pulsão em seu devir é um processo de dessubjetivação, de perda de si. Não é a toa que esse movimento defensivo muitas vezes se apóia nos movimentos de territorialização e de estratificação, ou seja, realiza uma mescla de estruturações dinamicas religiosas, politicas, e principalmente de cunho moral e econômico, pois hoje a moralidade também tornou-se moeda, o que já se evidenciava pelas conexões entre a analidade e a rigidez econômica e moral que aparece no obsessivo.
Assim, pode-se observar uma resistência pessoal e social contra o movimento de dessubjetivação implicados no devir. A fascinação do desejo, ou seja, o risco de entrar em um fluxo de fuga sem volta, é supervalorizada e leva a ataques intensos da maquinaria bélica do estrato e até a micro-facismos.
Outra consideração a ser feita aqui é acerca das interpretaçoes de cunho social-centrada e de sujeito-centrada do comportamento do individuo. A norma religiosa não é uma reedição da lei paterna, Deus não é somente um Grande Pai, mas isso não significa que não haja uma rede de equivalências que os liguem entre si e atribuam um sentido que nevague em ambos sentidos. O pai também se constitui como tal tendo como modelo o de um Deus que a tudo sabe.
Ao se compreender a subjetividade temos de pensar em arqueologia, não em genética. A arqueologia é o passado e a rede de relações que formam o fundo de um determinado fato, incluindo sua abertura ao futuro. Não há aí relação genetica, causa e efeito, mas uma rede diacrítica que destacam sentidos por compor o "entre" do percebido.
Como sempre, acabo em Merleau-Ponty.
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
Resumo de minha Qualificação
OLIVEIRA, V. H.; FURLAN, R. Desejo e Negatividade na filosofia de Merleau-Ponty. 2011. 85f. Qualificação (Mestrado) – Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, 2011.
O presente trabalho visa discutir, a partir das últimas obras de Merleau-Ponty, a articulação entre sua noção de desejo e o conceito de negativo. A pesquisa buscou primeiramente traçar o que o filósofo denomina de arqueologia do contato primordial do corpo com o mundo, buscando a camada pré-objetiva de abertura perceptiva a ele, a sentidos que não foram constituídos pelo sujeito, que o ultrapassa e lhe determina vetores de sentido. Os temas arqueológicos enfocam as noções de instituição e passividade, a relação da corporeidade humana com a animalidade, e o esquema corporal como abertura estesiológica e libidinal ao mundo, questões que nos abre a dimensão transtemporal e transespacial do corpo, que arrasta consigo um passado que retoma e antecipa as possibilidades do porvir. A partir desses tópicos, compreende-se que o desejo é busca de ser o dentro do fora e o fora do dentro no sistema de trocas do corpo com o mundo, em sua união por meio de distanciamento e estruturação do contato do corpo com o mundo. É nesse sentido que se podem ressaltar algumas noções psicanalíticas, pois elas permitem apreender essa topologia arqueológica do contato, as estruturações de sentido que nos permitem significar o mundo, e que não são de autoria de uma consciência constituinte. Por outro lado, o trabalho discutiu a idéia de negativo na obra do filósofo, a partir de seu diálogo com Sartre, tratando-o a partir da noção de invisível, avesso do ser e que está em seu interior, como um oco eficaz que se manifesta à percepção pelo modo de ausência. Partindo dessas construções merleau-pontyanas, discute-se a relação desejo-negatividade, a partir da crítica que o filósofo faz a Sartre e à própria Psicanálise, que interpretam o desejo como, respectivamente, estando destinado ao fracasso, e de ser em sua essência falta por um objeto para sempre perdido. Em vez de tratar o “negativo do desejo” como fracasso ou falta, partimos da leitura realizada por dois comentadores para conceber a posição de Merleau-Ponty nessa questão. Por um lado, Barbaras, que salienta o desejo como inesgotável enquanto é modo de relação com o originário e, por outro, Zielinski, que coloca o desejo como relação com um mundo que é, em si, inesgotável. Assim, buscou-se compreender que é por excesso, e não por falta, que se dá a negatividade na relação desejante com o mundo.
Palavras-Chave: Merleau-Ponty, desejo, negatividade, arqueologia do sensível, psicanálise.
Afogando-se na net
Venho há algum tempo buscando experimentar as interconexões que o Sistema Google de dominação virtual implementou. Como em artigo que publiquei (o único até agora...), pude estudar como a interface binária interfere até em nossa auto-imagem, ou seja, em como o sujeito se empenha na construção de si.
E assim são as redes sociais, os maiores produtos atuais da internet. O sujeito ali se auto-constrói, conforme se vê, conforme seu passado lhe permite ver-se, mas as condições de construção são grandemente determinadas de fora, do meio subjetivante no qual nos inserimos diariamente, e que abriga o presente texto.
à aqueles que buscarem experimentar, tendo desde já o risco de afogamento, pode olhar a barra superior do Google e, caso tenha uma conta, passar por seus variados serviços, e verificar suas conexões, podendo também associá-las com o Twitter e o Facebook. à quem ingressar nesta viagem, recomendo cautela.
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
Anticristo
Esta cena, uma das mais belas e angustiantes que já vi, explicita para mim a união mais intrínseca e nossa carne em sua mistura agressiva e sexual. Eros e Tânatos, conjugados, em uma série de acasos nada contingenciais, uma evolução que conjuga diversos clímax diferentes em um só momento de que chamamos de acontecimento. Quebram-se as trindade edipianas, desmantelam-se as fantasias e a concreção da vida ganha a profundidade máxima, a opacidade do afeto adquire brilho próprio, e, a partir desse singular momento, o que ocorre é uma abertura, uma marca, um nível, para todo sempre aberto, ao qual tudo sempre se referirá. Este é, no seio do concreto. O surgimento do Real.
Black Swann - Cisne Negro
Esta cena, minúscula no total do filme, que ganha mais destaque que o Lago dos cisnes original, possui a força das profundezas do Ser. Seu destaque se faz porque, sendo gêmeas opostas, sendo impulsos opostos desintegrados, refletem a posição cindida esquizoparanóide, e destaca, no fundo de cada ser humano, reprimido e controlado por nossa sociedade, o impulso destrutivo, agressivo, mortal, que nos conduz ao caos do qual surgimos. Tânatos.
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Ao psicólogo ordenhador de lágrimas
Sentimentos não se extraem, mas brotam do solo desértico em oásis momentâneos, ressecam por conta e voltam a formar matas tropicais, ou um simples canteiro.
Plante sua semente, mas é o solo que determina suas possibilidades.
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Ócio e tédio
Muita confusão se passa entre os dois devires. Os sujeitos em inatividade aparente são visto principalmente através da lente moralizante do ócio, e quando dizem-se entediados, acabam por serem interpretados como preguiçosos a se desculpar por sua diminuta moralidade, pela qual se justifica seu distanciamento e falta de desejo, ou ao menos de esforço, pelas atividades laborais.
Entretanto, muita diferença há entre as duas palavras que intitulam esse texto.
Ócio indica simplesmente um estado do sujeito no qual este se encontra sem exercer nenhum tipo de atividade. As mentes moralistas, que por se prenderem às exigências capitalistas julgam a todos, de modo reativo, exaltando suas qualidades morais de "ser trabalhador" (mas torcendo avidamente pela sexta-feira e excomungando a segunda-feira de sua inexpulsável posição temporal - a de ser após um dia sem trabalho); estes colorem de pútridos odores os momentos de ócio, os quais não se permite, e julga-o espaço aberto aos labores de outro ser, demoníaco.
Ora, é justamente aí que confundem o ócio com o tédio. Em si, a ociosidade mostra-se como aquela que nos retira do cotidiano, do estrato capitalístico que nos determina, e abre largas vias desterritorializadas, preparando-nos para a criatividade, o novo, a pura expressão, se é que algum dia esta foi pura.
Não que não haja aí um princípio demoníaco: essa capacidade desterritorializante em si é fator que desmantela o habitus e a repetição capitalística de valores, e assim torna-se um princípio maldito. Assim se vê na opinião social e na vida de muitos artistas e obras.
Mas esse poder destrutivo, também demoníaco, que é enfocado quando se descreve o ócio na opinião popular, esse é fruto do tédio. Quando as águas caudalosas do devir devasta os estratos, e acaba por dirigir-se a extinção brutal de tudo e de si mesmo, isso que Freud dizia ser repetição pulsional de Tânatos mas que é a reverberação do tédio.
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
Depressão e Capitalismo
Interessante compreender o aumento de casos de depressão atualmente. Segundo Freud em "Luto e melancolia", a diferença entre os dois fenômenos está no empobrecimento do mundo para o primeiro, pois o que se perdeu é um objeto externo, e o empobrecimento do ego para o segundo, pois o objeto perdido era algo pertencente, por identificação, à subjetividade desse.
O Capitalismo é o reino da falta. Sua dinâmica administra uma subjetividade cujo o desejo é padronizado e monetarizado. Há um esvaziamento dos objetos paternos e principalmente de seus substitutos, de modo que o sujeito, antes de se identificar com um objeto positivo, se identifica com um objeto negativo, com uma forma desejante binária, aberta a uma passagem objetal, à passagem de uma cadeia de signos desterritorializante.
Assim, caso o sujeito tenha a ousadia (que é incentivada) de se identificar com esse "ralo objetal", fica suscetível a ver-se pelo negativo, pelo jamais completo, e assim reconhece-se como vazio de si, identificado a um turbilhão de objetos-signos que escorrem constantemente e cuja parca consistência associada a uma necessidade ambivalente de completude, crie um sujeito deprimido.
Assim, temos uma estrutura social produtora de depressões e um sujeito que tem parca escolha, escolha essa que se faz entre as poucas alternativas disponíveis.
sábado, 13 de agosto de 2011
2012
O Armagedon nada mais é do que a última gota de sangue que escorre, pela louça barata da banheira em um motel carcomido chamado universo, do pulso de Deus.
sábado, 16 de julho de 2011
Psicanálise, seu exercício e religião
Psicanálise, seu exercício e religião
http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-50/anais-da-religiosidade/a-cura-pela-palavra
Sinto que o artigo da Revista Piauí expõe um conflito, que não pode assumir pois não o coloca claramente a si. Por isso, talvez, tenho a impressão de que ele não assume lados, não traça para si as linhas de força desse debate.
Há no texto duas formas de confronto: Psicanálise X Religião e Psicanálise oficial X Psicanálise extra-oficial. O segundo conflito me parece mais pertinente no momento.
A Sociedade Psicanalítica Ortodoxa do Brasil coloca uma questão à prática e a instituição Psicanalítica: ela questiona a hegemonia que a sociedade se institui acerca de um conhecimento que, atualmente, faz parte do compêndio universal. Questiona o que é a psicanálise enquanto instituição, enquanto política. Nesse sentido, pode-se até vislumbrar seu "ar revolucionário", sua busca por uma libertação do ensino psicanalítico das amarras burocráticas da instituição. É importante questionarmos o que é a psicanálise e como ela funciona, qual é a teia de valorização política que a rege.
Bourdieu nos apresenta como o discurso está entremeado de uma rede de valorização do capital simbólico e social. O que é um bom psicanalista? claro que a teoria em si apregoa como tal profissional deve ser, mas quando este está inserido no mercado, ele acaba por se amarrar na rede de valorização social dos capitais. Mesmo durante seus estudos, sua formação já se dá seguindo as linhas dessa capitalização do conhecimento. Assim, os nomes e a fama, a imagem enquanto moeda, acaba por ser determinante, já que o público, analisandos, só podem se relacionar com os analistas por esse índice de valores e também pela transferência, de modo que as relações entre o interior do sentimento individual e o exterior das determinações sociais ainda constituem um problema a ser mapeado.
O que é o analista? primeiro um nome, um adjetivo, e um valor subjetivo-social, teia de determinações que pesam de acordo com o concreto da relação no momento de seu estabelecimento. Como o analisando chegou ao analista? como soube dele, qual a fantasia que o moldou primeiramente? Se formos percorrer em detalhes essa "mecânica quântica", só teremos como respostas os infinitesimais das possibilidades humanas.
Há uma certa independência das determinações das sociedades psicanalíticas, de modo que o debate político pode esbarrar no muro burocrático do grupo-terror que visa manter a unidade e a coesão do grupo. Por exemplo, em temas que se encontram mais sensibilizados socialmente, como por exemplo o status da homossexualidade. Esse ponto é chave na sociedade atual, pois toda nova abertura de conceitos e preconceitos sociais cria uma fragilidade crítica que pode atrair e estruturar discursos extremistas, ou novas formas de subjetivações capitalísticas. Mas, além disso, existe o movimento legal, que tem por função legislar sobre essa movimentação de práticas e ideais, de forma a prevenir (e isso estou idealizando) abusos. Por exemplo, na patologização da homossexualidade. Há um movimento legal de interdição desse conceito, mas também a resistência de grupos ou profissionais que mantém seu status patológico. Essa não é uma questão pontual, mas epistemológica em sua generalidade: qual é o impacto e a responsabilidade de nossas produções teóricas e as práticas subjetivantes que as permeiam? Não é somente uma questão de escolha teórica, mas sim de posicionamento moral frente às ideias que se divulga em relação ao movimento social.
A liberdade não é uma concreção atual de nossos atos, mas um horizonte, uma áurea invisível que permeia o "entre" de nossas determinações... não epi-fenômeno, pois ela é tão real quanto o invisível do visível de Merleau-Ponty.
quarta-feira, 29 de junho de 2011
Arqueologia íntima do tema do tédio.
Quando brotou essa inquietação:
"Por pensar que ser normal é pular de cada segundo ao outro, como se, no entremeio de 12:32:05 e 12:32:06 houvesse um espaço de inexistência, é que busco, nesta pausa mesma da vida, afirmar-me no prenúncio de uma inspiração profunda, que retumba meu diafragma e estremece as retinas, buscando restabelecer as colunas que sustentam os contornos, retas e ângulos que se atém à minha frente por esse extremo e silencioso esforço chamado tédio."
Frase de boteco de minha autoria.
terça-feira, 28 de junho de 2011
Onde ciência e esoterismos são iguais...
Penso que já está na hora dos pensadores do "oculto", do "esotérico" deixarem essa busca infrutífera, ou melhor, o caminho desgastado pelo qual seguem. Já as ciências "aprovadas socialmente", pelo menos algumas delas, já iniciaram mudanças paradigmáticas, mas o modelo de pensamento esotérico ainda se atém a formas de pensamento cujas consequências foram há muito estudadas.
Em "O Símbolo Perdido", de Dan Brown, o autor usa como artifício literário (a revelação de um segredo em pequenas doses instigadoras, tendo como atributo principal sua relação com o que se chama de "real") temas da ciência noética como sendo a grande revolução paradigmática da atualidade.
É incrível verificar que a relação corpo-mente continue sendo tema de estudos e recebendo cada vez maior atenção. Na realidade, esse tema é antigo, e as teorias que visam sua compreensão também.
Desde a Idade Moderna, vemos duas posições que ainda impregnam as mentes atuais, que são o materialismo e o idealismo radicais. Com o passar do tempo, tais posições passaram a ser defendidas somente por poucos autores ou presente implicitamente em determinadas experiências científicas.
Aquilo que hoje é chamado de esoterismo é a assunção de teorias antigas ou orientais por um público ocidental, que utilizam como chave interpretativa de suas exposições alegóricas e metafóricas o idealismo radical.
Não que tais teorias em si não comportem algum idealismo, mas não há uma análise profunda da arqueologia das noções de "ideia" e de "pensamento" para esses textos. Assim, a ideia de que a mente manipula a matéria, de que o pensamento é um ente físico que apresenta massa, ou de que a matéria é pensamento (Amit Goswani).
Ora, como se buscar a natureza da relação entre matéria e pensamento, entre corpo e alma, se não se percorre um processo de arqueologia dessa relação, a busca de uma base para aí poder compreender os resultados teóricos.
Por exemplo, a premonição. Freud já considerava em sua obra que o sonho ou a sensação premonitória tem relação com com a estrutura psíquica do sujeito, tal como os sintomas, os atos-falhos, etc.
Entretanto, aprofundando um pouco mais na arqueologia de nosso contato com o mundo, podemos verificar que esse Grande Outro, diante ou pelo qual se estrutura o discurso, é não somente a alteridade do inconsciente, mas sim a impossibilidade da reversibilidade total entre tocante e tocado, vidente e visível, ou seja, o Grande Outro é a alteridade da identidade entre visível e invisível.
Há um invisível em nossa relação com as coisas, há um quiasma e uma interconexão que se dá pelo entre, pela distância, pelo contato à distância, pela transmissão expressiva da carne.
Merleau-Ponty nos permite especulações mais profunda sobre a relação entre corpo e alma, de modo que o pensamento da dobra nos fornece a possibilidade de fugir dessas posições extremadas tanto do materialismo radical quanto do idealismo radical. Não entrarei em detalhes, pois haveria de percorrer em grande parte a teoria merleau-pontyana, mas é importante apontar que aquilo que se chama de alma é o outro lado, o avesso, o invisível da visibilidade do corpo.
sexta-feira, 24 de junho de 2011
O uso da associação behaviorista de estímulos na axiomatização capitalística de sentimentos
esse "não tem preço" é axiomatizador de dupla via: por um lado ele mostra que os momentos de contato com o outro são inestimáveis, essenciais. Por outro lado, ele indica a ausência de valor econômico, que é o absoluto da promoção enquanto total beneficio e ausencia de custo.
é na desvalorização do capital que este se impregna em todos os meios, uma característica importante das redes de distribuição de informações na atualidade.
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sábado, 11 de junho de 2011
Subjetividade, dobra e psicologia
Vê-se que o bebê não é sujeito constituído. Pode-se dizer que a criança que nasce é, primeiramente, uma dupla antecipação, de acordo com o que se pode acessar sobre ele (pois o nascimento do sujeito em si fica na ordem do invisível de direito, como punctum caecum):
- Biológica: enquanto estrutura fisiológica, percebe-se nos estudos embriológicos uma relação de abertura, tanto a um passado arcaico da vida que transparece nos momentos evolutivos da espécie, quanto a um futuro, pois toda estruturação se dá na antecipação das formas futuras do corpo.
- Cultural: o sujeito-a-nascer é introduzido desde antes de seu surgimento na cadeia simbólica, sua posição é pré-determinada e sua vida estruturada pelas expectativas familiares, sociais e culturais (mesmo também ecológicas, ambientais, metereológicas, políticas...);
Assim, o sujeito é uma dupla dobra, dobrada e auto-dobrável:
- As linhas biológicas e culturais dobram-se em uma singularidade, em uma subjetividade;
- Entretanto, a subjetividade tem como característica o fato de ser uma estrutura estruturada e estruturante, ou seja, ela é uma abertura de campo no sentido merleau-pontyano, ela abre uma virtualidade enquanto Unwelt bio-psíquico-cultural, na qual pode efetuar dobras e auto-dobras. Isso fica claro quando se analisa a constituição da imagem corporal para o bebê. De acordo com Schilder (A imagem do corpo, Martins Fontes, 1999, p. 215), o bebê inicialmente trata seu corpo como trata os objetos inanimados, pega-se como se pegasse um objeto qualquer. Nesse momento, o corpo práxico distingue-se do corpo visto e tocado, há como que uma ambivalência incompleta, uma disjunção que mantém o bebê em uma exploração ativa, tanto do mundo externo quanto de seu corpo como parte deste mais próxima a ele. O que ocorre é uma articulação progressiva entre o corpo perceptivo e o corpo motor, que conjugam como duas faces de um mesmo esquema corporal, nunca totalmente identificáveis (nunca toco-me tocando), mas também nunca separadas, de modo que todo movimento requer uma contrapartida perceptiva, e toda percepção é sobresignificada com o movimento e a postura do corpo.
Conceber a dinâmica do esquema corporal é compreender que o sujeito dobra-se a si mesmo, nunca completamente, nunca se fechando ao Fora, mas dobra-se a partir do Fora, através do Fora, e não somente pelo Fora. Dessa forma, pode-se evitar uma compreensão empirista na qual tudo é exterior a tudo, e uma concepção idealista, na qual tudo é o Dentro da consciência. A consciência mesma é uma abertura às estruturas externas através das dobras que a constitui como tal, ela possui um ponto cego, perspectivas, ela é situada em um mundo o qual também constitui, mesmo que inconscientemente.
Dessa forma, a psicologia enquanto intervenção na relação das subjetividades não pode ser dada como relação de conteúdos subjetivos, mas sim como escavação lateral, como re-constituição de um conjunto de dobras e redobras (nunca estáticas, mas sempre "semi-padrões" de dobra, como os atratores estranhos da matemática da complexidade), e a análise é uma busca de acesso lateral ao sujeito.
sexta-feira, 10 de junho de 2011
subjetividade como singularidade topológica: o toro
O sujeito enquanto dobra, singularidade do Fora, é constituído enquanto um toro de dobras, de potencias de dobras, em torno de um centro que, em si, não existe. Seu corpo possui dinâmicas centrípetas (Eros) e centrífugas, que agem como um atrator estranho, atrator que não existe por si, mas pela conjuntura de forças bio-psico-sociais.
Se há o fora, este só pode ser acessado indiretamente, como um rompante do Real. Se há o dentro, esse é constituído de forças que foram capturadas no processo de subjetivação, que é social
Mas que depende de certos campos instituídos para se produzir.
Deve-se compreender a Natureza como campo dos campos, aquele que está entre a plena estratificação e a pura desterritorialização, Território de lugar nenhum em todos os lugares, vazio positivo, virtual concreto, abertura do "há".
terça-feira, 7 de junho de 2011
o artista e a obra
Somos constituídos de um movimento de subjetivação que se valoriza nas subjetividades individuais. Ainda somos herdeiros dos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, de modo que o sujeito credita a si mesmo os esforços e a criatividade de suas ações, cujas condições de produção há muito já foram determinadas.
Dessa forma, toda obra simbólica, valorizada pela economia cultural de um determinado contexto, acaba por se referir a um sujeito produtor. Sim, podemos atestar a veracidade disso, mas esse sujeito surge somente como uma singularidade de forças, sobre a qual não possui responsabilidade individual.
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Esse símbolo, o único que consegui produzir pelo parco poder da representação binária que disponho no momento, visa mostrar que o traço central, a trajetória do indivíduo concebido de forma linear pela visão atual, são na verdade o entrecruzamento de uma série de linhas de registros diferentes.
Assim, a responsabilidade de um sujeito por sua obra é a responsabilidade de seu mundo, e assim ele se esvanece em uma nuvem de sentido mais amplo, de um emaranhado que nos ajuda a compreender as condições de produção de sentido de uma determinada época.
Assim, quando Lady Gaga se diz portadora da revolução do POP, ela não constata sua potência individual, como talvez pense, mas se mostra como uma nova estruturação das forças culturais capitalísticas...
domingo, 15 de maio de 2011
Tedio e suas vicissitudes
A angústia pode ser na realidade uma manifestação do tédio estomacal. Frente as dificuldades de lidar com oposições não contraditórias vitais, o estomago torna-se foco de um vazio que vai além da cavidade que o significa, e que foi instituído por uma conjuntura atitudinal complexa. Vazio pleno, sempre preenchido de substâncias com as quais não se identifica... cansei!
quarta-feira, 4 de maio de 2011
Orquestra subjetiva
Uma orquestra reúne uma grande complexidade de sons que se compõem em uma estrutura intrínseca, uma melodia. A melodia é maior do que a soma dos instrumentos, de suas notas e tons, é imanente a esse território, porém o transcende, está sobredeterminada. Em cada nota, se é que esta pode ser isolada, encontra-se holograficamente toda a sinfonia que, como fundo, lhe determina seu valor.
Mas não é somente necessária a sinfonia para que se apreenda seu sentido. Enquanto é sobredeterminada, sua estrutura multidimensional possui lados ocultos, sentidos possíveis, não enquanto moléculas que flutuam em um para-além dos sons, mas que se escondem em suas junturas, em seus meandros, e que florescem em diferentes perspectivas, dependendo de quem a ouve.
O ouvinte é um mediador de equivalências, ele possui, devido ao rastro arqueológico que lhe compõem passivamente e com o qual ativamente ele contribui. Sua função é deixar que as diferenças o atravessem, que o sistema de abertura que o define destaque as articulações daquilo que ouve, seguindo suas linhas. Não que ele acrescente à melodia algo somente seu: como os diferentes graus de acuidade auditiva, sua percepção se abre diferencialmente para determinadas estruturas sonoras. Assim, o que ele percebe também é seu, mas na verdade o ouvinte pertence mais a sinfonia do que ela a ele. Em seu devir temporal, a sinfonia clama o ouvinte, pede que seja ouvida... é dessa forma que as músicas entram passivamente em nosso pensamento, e ali se cantam independente de nossa vontade, até que por si só se dissipem.
A sinfonia apresenta-se misteriosa, como algo que está para ser revelada pelo ouvinte...
Não é de música que aqui se fala... o mundo é uma sinfonia... o outro se apresenta para nós como uma sinfonia, sua fala possui um movimento que está fora de nós, movimento que nos cabe revelar... a sensibilidade que desenvolvemos ao outro é uma forma de conexão com este, nossos corpos se unem como dois líquidos se misturam homogeneamente, mas como duas frequências que se interferem, que se ressoam... claro que, eu e o outro, não somos melodias fechadas, somente abertas a uma profundidade que desde sempre já estava ali, mas somos ambos aberturas ao mundo, minha ressonância causa uma mudança qualitativa na do outro, a do outro em mim.
segunda-feira, 21 de março de 2011
Rascunho para possível Doutorado - Por uma Ética demoníca
Se aceita-se a tese kantiana das grandezas negativas, e se se passa a tratar a violência, o ódio, o "Mal", não enquanto uma ausência do amor, mas sim como algo de existência "positiva" em si mesmo, Urge uma reflexão sobre a Ética cujo Bem torna-se Unidade e Plenitude, para assim se compor toda uma rede múltipla de valores e retirar o homem dessa dualidade entre bom selvagem e mal radical.
- A relação entre tais grandezas em si estipulam seus próprios valores: em que determinado contexto de relações que determinados acontecimentos adquirem o caráter de benéficos ou de maléficos em nossa vida cultural, psíquica e até biológica.
Tenho literatura para tal: Merleau-Ponty, Garcia-Roza, Bataille.
Há uma estruturação humana entre desejo e morte, entre a violência e a vida, não como antípodas, mas formas de expressão do mesmo Ser. Freud se deparou com isso ao examinar a pulsão de morte.
domingo, 13 de março de 2011
Escrita a 4 mãos
Não é pura convergência de saberes homogêneos, nem simples disputa de posições opostas. Trabalhar a 4 mãos implica na criação, na maquinação conjunta, na reverberação das diferenças entre as multidões que se reúnem nessa encruzilhada.
O que desse encontro sai não é nem meu, nem seu. É independente de sujeitos, vaga por aí nas trilhas deixadas pelas diversas máquinas discursivas.
sábado, 12 de março de 2011
Sobre o Documentário Zeitgeist
O que significa "perguntar pelo princípio"? a religião é colocada (tanto na defesa quanto na crítica) como algo que fala dos princípios. Ora, enquanto discurso que parte dos homens, o discurso do princípio deve ser compreendido em sua gênese contextual. Dessa forma, o documentário Zeitgeist, em sua ânsia por expôr a gênese de nosso pensamento "cristão" (primeiro filme, primeira parte), não deixa de estar subordinado a um Zeitgeist.
Incrível uma das falas: "Não queremos ser indelicados, mas temos que ser factuais. Não queremos magoar os sentimentos de ninguém, mas queremos ser academicamente corretos naquilo que compreendemos e sabemos ser verdadeiro. O Cristianismo não é baseado em verdades" (Zeigeist).
Vejamos as palavras empregadas: há um jogo que classifica o discurso de forma dual e oposta: o fato a verdade, com conhecimento acadêmico, estão opostos ao conhecimento religioso, mítico, falso.
Ora, o documentário prega uma pureza dos fatos, como se fosse um diamante bruto que a cada passo fosse lapidado e encontrasse assim sua maior proximidade com a Verdade. Mas vemos que vários filósofos e sociólogos já questionam essa noção. Bourdieu, sociólogo francês, dissertou abundantemente sobre as relações de poder no conhecimento acadêmico, e sua relação de classe com o conhecimento operário ou popular. Mais do que encaminhar-se à uma verdade mais plena, o que se vê é um jogo de poder: quem detém o poder detém a verdade. A Igreja, detentora do poder na idade média, sobrepunha-se até ao saber científico. Entretanto, a queda de um foi concomitante à elevação do outro. Hoje, quem é adorada nos templos televisivos é a ciência, como fonte suprema da Verdade.
"Compreendemos e sabemos ser verdadeiro". Nem o físico quântico tem real conhecimento da amplitude e da verdade de sua teoria, quanto mais uma teoria que se baseia no encadeamento de fatos de diversas culturas, descontextualizando-os e criando uma cadeia lógica. A logicidade de uma história ou de um encadeamento de fatos não é garantia de sua verdade!
Há aí uma questão sobre o conhecimento e a noção de Verdade. Esse discurso de que "há uma verdade" é semelhante ao da religião. Não há mudanças de discurso entre os cristãos e o documentário. Podemos então encontrar, nos discursos que se colocam libertários, o mesmo jogo de poder. A verdade, a iluminação, o fato, são os novos deuses... Assim, continuamos a cultuar o Sol...
Deve-se salientar que a crítica ao discurso adotado em Zeitgeist não é uma tentativa de invalidar suas descobertas e defender a verdade cristã... O que se busca é desvendar o movimento que se dá por baixo dos dois, mostrar suas semelhanças, e assim ponderar nossas posições acerca do que é ou não verdadeiro, e até sobre a ideia adotada sobre a verdade.
Realizar uma crítica não é substituir verdades, mas contextualizar discursos, ponderar fatos, pesar seu alcance, e só eliminar aquilo que, após esse exame mais profundo, revelou-se inconsistente.
Uma religião torna-se despropositada quando busca, no discurso científico, encontrar bases que as ratifiquem como verdadeiras. Uma ciênmcia que trata suas descobertas como sendo a verdade suprema das coisas, se esquece da diversidade de pontos de vista, das abordagens possíveis, e assim torna-se divina, perdendo sua objetividade.
Há uma realidade mítica do ser humano, que conta para sua percepção, há um poder de julgamento racional, que lhe permite compreender mais objetivamente os fatos ao redor. Há diálogo entre essas realidades, mas sua compreensão ainda está por ser feita, na minha opinião.
sábado, 26 de fevereiro de 2011
Escola freakshow
A instituição escolar como exacerbação do Mesmo gera uma aberração maior que os aberrantes que a compõe.
O bullying enquanto patologia é contingente de uma sociedade que emprega o inglês como substantivo nominal básico de qualquer forma de pseudoprofundidade científica. Ou seja, do processo de homogeneização lateral por via axiomática, no valor virtual de troca do capital.
Assim, toda diversidade inextinguível sai ao menos marcada subjetivamente, diferença marcada como desvio, desvio codificado e aceito, ou rejeitado e depositado em outras cadeias significantes cujo mastro-falo possibilite novas relações e ligações axiomáticas.
Assim, o deficiente, o gordinho, o feio, o religioso, o gay, cada qual acaba por, na afirmação de sua diferença, fazê-lo pelo mesmo, criar discurso que o signifique e o possibilite entrar no jogo capitalístico.
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
o oco do perverso
O perverso não se angustia... seu sintoma maior é o tédio. Como perambula por entre as regras, ultrapassando limites, tudo lhe transparece como se não houvessem barreiras intransponíveis... tudo se iguala ao redor do véu que tampona a falta do pênis materno, tudo se iguala no valor de troca fálico... no mundo fálico-capitalístico, todos podem comprar seu próprio pau. As contingências e as impossibilidades que advém com o nascimento, todas desaparecem à sombra do artificial... a repetição do pseudo-novo, a mesmice da novidade cotidiana, o tédio orgânico ao qual levam...
Shopping Santa Úrsula: templo suicida
Uai, porque justo um shopping tornou-se point de suicidas? Com certeza não é só pela facilidade de pular do terceiro andar, pois há vários lugares também possíveis... a vida, dolarizada, tem o shopping como seu templo do vazio, do oco necessário a dinâmica do ter. Porque a necessidade dessa morte visível, desse showmício? Tudo é reality show, tudo está no youtube, a informação está sob o paradigma da universalização rasa, todos. Podem saber de tudo, e por fim ninguém sabe nada. O panóptico tornou-se omniótico, sem centro, sem sujeito, tudo é visível e vidente, o shopping circular, ambientalizado, asséptico, retira-nos da contingência e das diferenças que nos permeiam e nos insere num mundo onde tudo é transparente, vitrine, tudo lhe é acessível desde que se axiomatize pelo capital.
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
olhar funebre de um pinguim
Um pinguim, em fuga de sua orca, sabe-se já não pertencer a este mundo. Entretanto, se marcado pelo tédio, a rodopiar na monotonia preto-branco de sua carne, escapa às contingências da morte, preso no eterno luto de si mesmo... para-se o tempo com lamúrias preguiçosas, amplia-o como uma bolha o faz com a luz que a transpassa. O tédio são gases intestinais, a dilatar nosso tempo sofrido, paralisar o sofrimento. A isso dá-se o nome de gozo.
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
Pay-per-view
A devassidāo dos relatórios,
a lubricidade que escorre do relógio de ponto,
gozam índices de desempenho pelo vai-e-vem da produtividade...
todos se car-comem entre engrenagens,
todos de ludibriam nas fantasias gerento-fálicas...
o capital-interrompido, sempre a prolongar o consumo tântrico, que posterga o clímax ao post-mortem...
nada sobram, além de ligeiras fumaças de cigarro, onde soçobram as esperanças.
O entumescimento burguês,
a frigidez proletária,
o que explode e transborda nas alcovas bancárias,
o fluido viscoso de nossos extratos,
em jatos sórdidos por entre juros e taxas de crédito...
$$$$$$$$$$$$$$$$$
grita em momento de glória, por fim,
míseros segundo antes do débito em conta,
momento ínfimo de trégua do desejo e de seu recomeço...
tudo é seduçāo no violento mover do dolar,
que a tudo representa e a tudo substitui.
a lubricidade que escorre do relógio de ponto,
gozam índices de desempenho pelo vai-e-vem da produtividade...
todos se car-comem entre engrenagens,
todos de ludibriam nas fantasias gerento-fálicas...
o capital-interrompido, sempre a prolongar o consumo tântrico, que posterga o clímax ao post-mortem...
nada sobram, além de ligeiras fumaças de cigarro, onde soçobram as esperanças.
O entumescimento burguês,
a frigidez proletária,
o que explode e transborda nas alcovas bancárias,
o fluido viscoso de nossos extratos,
em jatos sórdidos por entre juros e taxas de crédito...
$$$$$$$$$$$$$$$$$
grita em momento de glória, por fim,
míseros segundo antes do débito em conta,
momento ínfimo de trégua do desejo e de seu recomeço...
tudo é seduçāo no violento mover do dolar,
que a tudo representa e a tudo substitui.
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