Vou tentar aqui esboçar um pouco do que foi minha história de pesquisa desde a faculdade. Muitos me questionam sobre o que pesquiso, e na verdade nunca soube dar uma resposta. Nunca soube nomear o que faço, pois acho que, como é uma pesquisa teórica, ela não tem um foco muito definido, ou eu que nunca o defini muito bem. Assim, resolvi tentar esboçar aqui minhas atividades.
O nome do site deriva do termo "Deus ex machina" (Latim: Deus surgido da máquina), que indica o surgimento de algo que, introduzido repentinamente na trama ficcional, amarra as pontas soltas e dá sentido a história.
domingo, 15 de julho de 2018
domingo, 1 de julho de 2018
Tendência revisionista
Auto-retrato, Picasso
Quando se vive apinhado de urgências, um mínimo descanso soa, na falta de hábito, com uma ansiedade difusa, um sentimento de que há algo a fazer e que foi esquecido. Talvez o que se esquece é justamente que a vida é feita também desses momentos em que não há obrigações.
É assim que inicio minhas férias, e em clima de revisão. As pessoas em geral preferem seguir calendários para esses movimentos. Estou seis meses adiantado, ou seis meses atrasado. Enfim, o que importa é olhar para si e perceber que as coisas mudam e que se você continuar parado com os mesmos hábitos, vai adoecer.
O primeiro passo é tomar consciência de alguns movimentos. Não em sentido psicanalítico, não é análise, mas simples auto-observação. Falta isso no dia a dia. A partir disso, percebi que meus braços não cobrem o Equador. Não posso abraçar o mundo, nem tenho intenção de fazê-lo. Está na hora de abrir mão do controle obsessivo, liberar o esfincter mental que acumula tudo em si.
O problema de eliminar coisas só existe quando temos que escolher entre atividades que gostamos. Se algo não é importante para nós e não somos obrigado a ele, não há porque manter. Se ele não é importante, mas alguma contingência da vida nos mantém atado a ele, também não há muito problema, a não ser ter que aceitar continuar desse modo. O problema mesmo é quando se gosta de várias coisas não há tempo para todas.
É melhor perder algo se tiver que investir em outra coisa que goste mais, e que é mais importante para si. Nisso, eu venho escolhendo restringir interesses, direcionar estudos, dizer "não" a algumas coisas. Não é fácil, mas os frutos estão aparecendo. Espero que possa, assim, abrir espaços para aquilo que realmente importa no caminho que quero e dou conta de traçar.
quinta-feira, 14 de junho de 2018
Epitáfio a um pinguim 2
Jaz aqui, retinto, alguém que esperou, suspirou e morreu.
Falecido porém insatisfeito, pronto a querer renascer das suas cinzas em Shiva,
que lhe permita, oh! Deus, que lhe permita!
Saibas que, no âmago dessa união recíproca entre minha vida
e a tua, só nos resta tornarmo-nos um. Dissolver a relação nessa unidade
inerte, não-tensa...
O contato com o absurdo fez-me perder a graça de qualquer
outra coisa que não seja superação... porém, diante da intrigante verdade de
que não sou puro transcender, que, como todos, estou afogado no Mesmo, não
tenho o que respirar...
História sem corda
Sinto
que o tempo passa e eu persisto. Manter-se não é algo de se orgulhar. É
sobreviver, mesmo se não há a opção para seguir. Caminhar com o Tempo, isso é
digno. Assumir que ao virar uma esquina, após tomar um refrigerante e comer
dois salgados, acompanhados daquela paz que oculta o cansaço do cotidiano, um
metal ovalado atravessa seu caminho. Aí ele segue, e é você quem fica. Vira
passado. Ser passado é inexistência presente. Ter passado é nostalgia.
Quando era criança, me orgulhava de resistir ao calor do asfalto. A
grossa palma dos pés mantinham-se sobre o solo quente de Ribeirão Preto em
Janeiro. Às vezes era preciso correr, mas quando ficava ali, parado, percebia
que aquilo subia-me pelos pés mas não me incomodava – eu era um herói,
sobre-humano.
Tenho passado, mas agora persisto. Algo rompe a linha histórica, vê-se um
campo nebuloso onde nada que possui grande sanidade penetra. Depois disso, eu.
Ali, a contar.
Um, dois, três. Lembro-me de meu reino. Centenas de miniaturas formavam famílias,
possuíam casa e função. Todos sob um governo forte, centralizado pelo meu
alter-ego. Acho que na verdade eu não era o governo. Sempre tive vocação para
ser Deus. Animava o plástico, e dizia: “Do polímero vieste, ao polímero
voltarás”. E nesse meio termo viviam. Os velhos vidros de esmalte de minha mãe: feiticeiras e magos representavam aquela pressa de resolver-se tudo rápido – o
mundo salvo a cada tarde. Assim me sacrifiquei, e na divina posição persisto.
Só há dois problemas na perfeição. Sua solidão e sua inexistência. Há
também sua finitude, pois o clímax é o início do fim. Fim, que fim? Só
persisto.
Se houvesse um relógio de pêndulo em casa, teria jogado tal criatura aos
ventos pela janela até o quintal. Seu ir e vir, Tic-tac, 1, 2, 3, 4, 5... contar,
contar para quê? Se ainda soubesse o que me move a contemplar, parado, a
observar todos passando, com seus carros, em seus dramas de chegar do trabalho
prontos para falarem de seus dias, ou não. Olhando e contando, 4, 5, 6,...
tic-tac, tempo passa e eu persisto. Todos passam por mim, cumprimentam, vão,
vem outros, que também passam, dão bom dia e eu respondo “hum-hum”.
Nas aulas de biologia, via quem eu era. A luz atingia meus
fotorreceptores, abriam-se canais de sódio, e lá ia um impulso pelo nervo
óptico para minha nuca, saía pela esquerda, passava pela minha orelha e unia-se
a um pulso elétrico dizendo “Bom dia, como vai?”. Daí era só seguir mais um
pouco, para e dizer “hum-hum!”.
Era dono de mim, de minha vida, meu corpo, contemplava – sabia o porquê.
Cogito ergo sun! Fotorreceptores, 5, 6, 7, 8, cóclea tic-tac, faringe hum-hum!
Tudo em seu lugar, ritmado e ordenado, exaltados por serem donos de si!
Mantinha os pés no asfalto. Ali, brincando sem me preocupar de ir em
casa, para um fútil chinelo de dedo. No máximo, as caridosas árvores cediam-me
suas sombras para que eu esperasse um pouco e respirasse. Inspira, expira, 6,
7, 8,...
Já tenho vários pôr-do-sol. Todos os têm. Mas poucos os vêem. Já vi
alguns. Laranjas, vermelhos, rosas, o céu numa variação de azul-claro ao
marinho. Vi também seus extremos, o nascimento de esferas amarelas gigantes.
Podia vê-la sem ter que desviar os olhos. Acho que sempre desafiei o Sol. Um
Deus de derivados petrolíferos não deve teme-lo, a não ser que derreta sua criação.
Fazia questão de montar uma cidade inteira, pôr todos os personagens. O
protagonista era pequeno, laranja, com orelhas de urso carcomidas e pequenas,
olhos alegres. Fiz-lhe uma voz infantil, frágil porém destemida. Ele não estava
só, uma pequena gata, cor-de-rosa, de voz meiga era sua namorada. Ela
rapidamente se foi. Todos se foram. Persisto.
O interessante de persistir é que o tempo não passa para nós. Ele nos
abandona, e acompanha aqueles que estão ocupados demais para percebê-lo.
O devir temporal encontra-se quando seu primo aparece em sua casa, usando
uma roupa de abrigo que você reconhece como sua. E ele é 10 anos mais novo...
De repente achamos uma foto onde sua pele lisa, cabelos desarrumados e roupa
suja de barro se mostram e você nem se lembra de quando foi; 8, 9, tic-tac...
Minha vó possuía três relógios no quarto (tic-tac)3. Dois
foram parar na cozinha, do outro lado da sala, numa noite em que dormia lá. O
tempo me irrita. Tira toda novidade do mundo, pois olho, vejo, é só tic-tac,
ele lá, me olhando, distante, com suas longas barbas brancas pelo chão. A sua
córnea esbranquiçada não me permite distinguir o quanto seus olhos eram azuis.
A raiz amarelada do cabelo, o que sobrou dele misturado às longas barbas, eram
consoantes com a cor das unhas desgastadas. Já não sorria mais. Só me olhava a
balançar o cajado, pastoreando o mundo a contar. 10, 9, 8, 7... E eu daqui
também enumerava 8, 9, 10. Persisto.
Publicado no Livro Poeta de Gaveta, vol. 10
Olhai o céu
Naquela sala, a luz tênue que entrava pela fresta da janela iluminava
todo o ambiente. Haviam poucos móveis a interromper tais ondas luminosas;
apenas uma cama, uma pequena cômoda com toda uma vidraria de perfumes, que
transformavam a parede em um grande vitral colorido, refletindo as tendências
religiosas da cruz que se sobrepunha e guardava o ambiente. E, atingido
indiretamente pelas cores da perfumaria, estava um grande espelho emoldurado
rusticamente, mas suavizado em sua dureza pela perfeição das imagens que
projetava.
Ao entrar em seu quarto, ela esbarrara na porta, esta abrindo suavamente
e aumentando a luz no ambiente. Fechou-a, de modo que toda a clarividência
sobre a sala manteve-se restrita ao facho da janela, trazendo de volta o vitral
antes sobreposto por aquela luminosidade.
Parou em frente ao espelho. Com um simples toque, soltou a toalha que
cobria seu corpo nu. Pelo grande espelho, ela pôde visualizar mais plenamente
seu belo corpo. A pele alva de sua face enrubesceu levemente, exibindo o pudor
de sua rígida educação. Passou as mãos por sua barriga, levou-a a seus seios,
massageando vagarosamente em busca de algo escondido. Como não encontrou nada
além do familiar, respirou.
Na cômoda pegou um frasco, o abriu e passou seu conteúdo pelo corpo,
emanando um característico odor de rosas pelo quarto. Massageava os ombros,
levando as mãos pelo pescoço; logo desceu pela barriga e tentou alcançar a
região mais extrema de suas costas. Braços, seios, cintura, nádegas. Aos poucos
o creme se esvaía de suas mãos pelo seu corpo, indo até o interior das coxas.
Toda a massagem diminuía as tensões corporais, gerando, além da paz após
a luta diária, prazer. Era impossível negar todo o prazer que tal ato produzia.
Aproximava-se receosamente de seu púbis, o que lhe aumentava agradavelmente as
sensações. Conduzida então por seus instintos, alcançou-o.
Em simples movimentos, deitou-se. Passou a se sentir bem, dona de si.
Seus pequenos pés estavam esticados. Acariciavam-se mutuamente, em auto
aceitação, cumprimentando-se como qualquer casal faria. Acompanhando o brilho
da base das unhas, a fina tornozeleira cintilava devido à luz da janela, como
se fosse um pequeno vitral dourado, de luzes rítmicas concorrendo com o grande
vitral de perfumes.
Os olhos negros, que antes se duplicavam no espelho em imensos fossos
misteriosos, agora estavam fechados. Percebia a tênue luz avermelhada, como um
mundo todo realizado em sangue e pele, de luzes alegres em intensas variações,
um dinamismo pertinente a tal ato. Os finos fios de cabelos negros
espalhavam-se pela cama, entregando-se às rendas brancas do lençol.
Porém, em pouco tempo, a aparente calma foi substituída pela coerência
entre o que sentia e sua carne. Os músculos passaram a se contrair em ritmo
constante. Os lábios inferiores foram repreendidos pelos dentes; o pescoço
passou a jogar a cabeça para trás e os cabelos, antes misturados à renda
começaram a se mover, formando ondas energéticas de grande amplitude.
Os braços esticados passaram a se contrair, lutando contra sua intenção
viva, sofrendo assim paralisias devido à rigidez. E os pensamentos, antes quase
que suspensos, virou a sua face para a grande cruz, misturada às cores do
vitral, e assim temeu por sua liberdade. Em parcos minutos, um gemido brando
libertou os lábios de seu cárcere. Havia chegado ao clímax, aonde seus impulsos
se contradiziam com seu pudor e regra moral.
Sentiu-se culpada.
O clima externo à sala era calmo. Lá fora, o céu azul cobria todas as
regiões, mas as nuvens ainda mantinham sua fixa posição. Mas a ira divina
sempre impõe dinâmica de sua criação. As nuvens foram destituídas de seu
lugar, as folhas voaram e tudo se moveu. De repente, a fresta na janela
transformou-se em uma grande corrente luminosa e atingira o corpo deitado na
cama, em êxtase. Havia sido descoberta pelo céu. E uma nuvem tampou o sol; uma
rala sombra a encobriu.
Levantou-se rapidamente e fechou a janela. Coberta agora pela grande
escuridão, ficara só. O vitral se desvaneceu, o rosto de Jesus fechou-se. Não
havia mais nada na sala, além do Nada.
Entretanto, um simples ponto, uma imperfeição na janela deixou que apenas
um feixe de luz entrasse. Este se refletiu no espelho e atingiu um frasco, e
seu líquido azul transformou-o em um límpido céu, sem nuvens, livre...
Carne da palavra
A boca, genitália inútil,
busca, nos entremeios de seus verbos as saliências dos versos incrustados na
grossa crosta de suas pernas em puídas calças de brim azul.
Não há Nada, além do ácido
suor a desgostar a língua, e a pujança dos léxicos em suas coxas finamente
delineadas, pronta a titubear mesmo a prosa luciferina, carne mesma dos caninos
a brincar de vampirismo nas incisivas marcas em minhas costas.
E, no encontro de músculos
incansáveis, a obtusa gramática sem rodeios, percorre os veios pálidos pela
nicotina das eternas desculpas recitadas no espelho. Me dá um cigarro, louva o
poeta e clama a boca, cuspindo a outra um escarro em centenas de lancinantes
adjetivos, penetrando e perfazendo pérfidas personificações pertinentes a
perversidade da al-cunha atroz, lábil e conundente de língua.
Sexo oral é redundância.
segunda-feira, 11 de junho de 2018
Espaços
um bom motivo pra tudo atrasar.
E ainda é cedo pra lá
chegando às seis tá bom demais
Deixa o verão pra mais tarde"
Los Hermanos
Contra a parcimônia dos minutos
pesam meus pés sobre a mesinha,
colam as costas através do encosto,
estofo-me nos móveis,
enquanto, em olhar, na contra-corrente,
sobrevoo os imensos campos além-nuvens.
Dizem meus pés que o chão se move, circula sem fim
em torno de urgências prêt-à-porter
Mas assim, elevados, cegos dessa fricção
emolduram a paisagem azul que vem com o vento
virando ao revés as folhas de minha agenda,
despreocupada assim com as datas,
num arco-íris branco de vazios por fazer...
domingo, 10 de junho de 2018
quinta-feira, 19 de abril de 2018
Sementinha
Mamãe sentia o estômago ressequido do sertão.
Quanta labuta de pouca dádiva
soçobrou na areia seca.
Mas do mar que me escorreu entre pálpebras
Irrigou o solo
Percorreu minhas planícies
Inundou vales
Brotou em mim
Maria flor
Quanta labuta de pouca dádiva
soçobrou na areia seca.
Mas do mar que me escorreu entre pálpebras
Irrigou o solo
Percorreu minhas planícies
Inundou vales
Brotou em mim
Maria flor
sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018
A forja
Fossils (black), Mohau Modisakeng - África do Sul
http://www.mohaumodisakengstudio.com
http://www.mohaumodisakengstudio.com
"Me deixem cantar até o fim"
Elza Soares
A mulher do fim do mundo
No corpo incandescente
A vida martela cada curva e marca,
Incessante,
A letra ainda vazia de meu grito áspero.
A vida martela cada curva e marca,
Incessante,
A letra ainda vazia de meu grito áspero.
Dúvidas e dádivas que me corroeram
Sempre ali, onde escorreu o viscoso líquido vermelho
E enferrujou minha alma.
O bumbo surdo do martelo me fundiu
Me refez a cada nota, minuciosamente calculado -
Cada prego, cada destino, cada nota, cada lágrima.
Sempre ali, onde escorreu o viscoso líquido vermelho
E enferrujou minha alma.
O bumbo surdo do martelo me fundiu
Me refez a cada nota, minuciosamente calculado -
Cada prego, cada destino, cada nota, cada lágrima.
Dizem que o samba é triste,
Dizem que a vida é triste.
A vida é samba,
A tristeza, quando samba, se contradiz
E retumba cada batida com as do peito
Na sincronia que nos dá força
e na melodia de que somos feitos.
Dizem que a vida é triste.
A vida é samba,
A tristeza, quando samba, se contradiz
E retumba cada batida com as do peito
Na sincronia que nos dá força
e na melodia de que somos feitos.
No calor dessa forja,
Onde perco minha forma,
Liquefaço meus sentidos.
Se evapora minha lágrima
Fica o sal, me torno mar:
Persisto além do horizonte,
Sobrevivo.
Onde perco minha forma,
Liquefaço meus sentidos.
Se evapora minha lágrima
Fica o sal, me torno mar:
Persisto além do horizonte,
Sobrevivo.
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