Sinto
que o tempo passa e eu persisto. Manter-se não é algo de se orgulhar. É
sobreviver, mesmo se não há a opção para seguir. Caminhar com o Tempo, isso é
digno. Assumir que ao virar uma esquina, após tomar um refrigerante e comer
dois salgados, acompanhados daquela paz que oculta o cansaço do cotidiano, um
metal ovalado atravessa seu caminho. Aí ele segue, e é você quem fica. Vira
passado. Ser passado é inexistência presente. Ter passado é nostalgia.
Quando era criança, me orgulhava de resistir ao calor do asfalto. A
grossa palma dos pés mantinham-se sobre o solo quente de Ribeirão Preto em
Janeiro. Às vezes era preciso correr, mas quando ficava ali, parado, percebia
que aquilo subia-me pelos pés mas não me incomodava – eu era um herói,
sobre-humano.
Tenho passado, mas agora persisto. Algo rompe a linha histórica, vê-se um
campo nebuloso onde nada que possui grande sanidade penetra. Depois disso, eu.
Ali, a contar.
Um, dois, três. Lembro-me de meu reino. Centenas de miniaturas formavam famílias,
possuíam casa e função. Todos sob um governo forte, centralizado pelo meu
alter-ego. Acho que na verdade eu não era o governo. Sempre tive vocação para
ser Deus. Animava o plástico, e dizia: “Do polímero vieste, ao polímero
voltarás”. E nesse meio termo viviam. Os velhos vidros de esmalte de minha mãe: feiticeiras e magos representavam aquela pressa de resolver-se tudo rápido – o
mundo salvo a cada tarde. Assim me sacrifiquei, e na divina posição persisto.
Só há dois problemas na perfeição. Sua solidão e sua inexistência. Há
também sua finitude, pois o clímax é o início do fim. Fim, que fim? Só
persisto.
Se houvesse um relógio de pêndulo em casa, teria jogado tal criatura aos
ventos pela janela até o quintal. Seu ir e vir, Tic-tac, 1, 2, 3, 4, 5... contar,
contar para quê? Se ainda soubesse o que me move a contemplar, parado, a
observar todos passando, com seus carros, em seus dramas de chegar do trabalho
prontos para falarem de seus dias, ou não. Olhando e contando, 4, 5, 6,...
tic-tac, tempo passa e eu persisto. Todos passam por mim, cumprimentam, vão,
vem outros, que também passam, dão bom dia e eu respondo “hum-hum”.
Nas aulas de biologia, via quem eu era. A luz atingia meus
fotorreceptores, abriam-se canais de sódio, e lá ia um impulso pelo nervo
óptico para minha nuca, saía pela esquerda, passava pela minha orelha e unia-se
a um pulso elétrico dizendo “Bom dia, como vai?”. Daí era só seguir mais um
pouco, para e dizer “hum-hum!”.
Era dono de mim, de minha vida, meu corpo, contemplava – sabia o porquê.
Cogito ergo sun! Fotorreceptores, 5, 6, 7, 8, cóclea tic-tac, faringe hum-hum!
Tudo em seu lugar, ritmado e ordenado, exaltados por serem donos de si!
Mantinha os pés no asfalto. Ali, brincando sem me preocupar de ir em
casa, para um fútil chinelo de dedo. No máximo, as caridosas árvores cediam-me
suas sombras para que eu esperasse um pouco e respirasse. Inspira, expira, 6,
7, 8,...
Já tenho vários pôr-do-sol. Todos os têm. Mas poucos os vêem. Já vi
alguns. Laranjas, vermelhos, rosas, o céu numa variação de azul-claro ao
marinho. Vi também seus extremos, o nascimento de esferas amarelas gigantes.
Podia vê-la sem ter que desviar os olhos. Acho que sempre desafiei o Sol. Um
Deus de derivados petrolíferos não deve teme-lo, a não ser que derreta sua criação.
Fazia questão de montar uma cidade inteira, pôr todos os personagens. O
protagonista era pequeno, laranja, com orelhas de urso carcomidas e pequenas,
olhos alegres. Fiz-lhe uma voz infantil, frágil porém destemida. Ele não estava
só, uma pequena gata, cor-de-rosa, de voz meiga era sua namorada. Ela
rapidamente se foi. Todos se foram. Persisto.
O interessante de persistir é que o tempo não passa para nós. Ele nos
abandona, e acompanha aqueles que estão ocupados demais para percebê-lo.
O devir temporal encontra-se quando seu primo aparece em sua casa, usando
uma roupa de abrigo que você reconhece como sua. E ele é 10 anos mais novo...
De repente achamos uma foto onde sua pele lisa, cabelos desarrumados e roupa
suja de barro se mostram e você nem se lembra de quando foi; 8, 9, tic-tac...
Minha vó possuía três relógios no quarto (tic-tac)3. Dois
foram parar na cozinha, do outro lado da sala, numa noite em que dormia lá. O
tempo me irrita. Tira toda novidade do mundo, pois olho, vejo, é só tic-tac,
ele lá, me olhando, distante, com suas longas barbas brancas pelo chão. A sua
córnea esbranquiçada não me permite distinguir o quanto seus olhos eram azuis.
A raiz amarelada do cabelo, o que sobrou dele misturado às longas barbas, eram
consoantes com a cor das unhas desgastadas. Já não sorria mais. Só me olhava a
balançar o cajado, pastoreando o mundo a contar. 10, 9, 8, 7... E eu daqui
também enumerava 8, 9, 10. Persisto.
Publicado no Livro Poeta de Gaveta, vol. 10

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