Naquela sala, a luz tênue que entrava pela fresta da janela iluminava
todo o ambiente. Haviam poucos móveis a interromper tais ondas luminosas;
apenas uma cama, uma pequena cômoda com toda uma vidraria de perfumes, que
transformavam a parede em um grande vitral colorido, refletindo as tendências
religiosas da cruz que se sobrepunha e guardava o ambiente. E, atingido
indiretamente pelas cores da perfumaria, estava um grande espelho emoldurado
rusticamente, mas suavizado em sua dureza pela perfeição das imagens que
projetava.
Ao entrar em seu quarto, ela esbarrara na porta, esta abrindo suavamente
e aumentando a luz no ambiente. Fechou-a, de modo que toda a clarividência
sobre a sala manteve-se restrita ao facho da janela, trazendo de volta o vitral
antes sobreposto por aquela luminosidade.
Parou em frente ao espelho. Com um simples toque, soltou a toalha que
cobria seu corpo nu. Pelo grande espelho, ela pôde visualizar mais plenamente
seu belo corpo. A pele alva de sua face enrubesceu levemente, exibindo o pudor
de sua rígida educação. Passou as mãos por sua barriga, levou-a a seus seios,
massageando vagarosamente em busca de algo escondido. Como não encontrou nada
além do familiar, respirou.
Na cômoda pegou um frasco, o abriu e passou seu conteúdo pelo corpo,
emanando um característico odor de rosas pelo quarto. Massageava os ombros,
levando as mãos pelo pescoço; logo desceu pela barriga e tentou alcançar a
região mais extrema de suas costas. Braços, seios, cintura, nádegas. Aos poucos
o creme se esvaía de suas mãos pelo seu corpo, indo até o interior das coxas.
Toda a massagem diminuía as tensões corporais, gerando, além da paz após
a luta diária, prazer. Era impossível negar todo o prazer que tal ato produzia.
Aproximava-se receosamente de seu púbis, o que lhe aumentava agradavelmente as
sensações. Conduzida então por seus instintos, alcançou-o.
Em simples movimentos, deitou-se. Passou a se sentir bem, dona de si.
Seus pequenos pés estavam esticados. Acariciavam-se mutuamente, em auto
aceitação, cumprimentando-se como qualquer casal faria. Acompanhando o brilho
da base das unhas, a fina tornozeleira cintilava devido à luz da janela, como
se fosse um pequeno vitral dourado, de luzes rítmicas concorrendo com o grande
vitral de perfumes.
Os olhos negros, que antes se duplicavam no espelho em imensos fossos
misteriosos, agora estavam fechados. Percebia a tênue luz avermelhada, como um
mundo todo realizado em sangue e pele, de luzes alegres em intensas variações,
um dinamismo pertinente a tal ato. Os finos fios de cabelos negros
espalhavam-se pela cama, entregando-se às rendas brancas do lençol.
Porém, em pouco tempo, a aparente calma foi substituída pela coerência
entre o que sentia e sua carne. Os músculos passaram a se contrair em ritmo
constante. Os lábios inferiores foram repreendidos pelos dentes; o pescoço
passou a jogar a cabeça para trás e os cabelos, antes misturados à renda
começaram a se mover, formando ondas energéticas de grande amplitude.
Os braços esticados passaram a se contrair, lutando contra sua intenção
viva, sofrendo assim paralisias devido à rigidez. E os pensamentos, antes quase
que suspensos, virou a sua face para a grande cruz, misturada às cores do
vitral, e assim temeu por sua liberdade. Em parcos minutos, um gemido brando
libertou os lábios de seu cárcere. Havia chegado ao clímax, aonde seus impulsos
se contradiziam com seu pudor e regra moral.
Sentiu-se culpada.
O clima externo à sala era calmo. Lá fora, o céu azul cobria todas as
regiões, mas as nuvens ainda mantinham sua fixa posição. Mas a ira divina
sempre impõe dinâmica de sua criação. As nuvens foram destituídas de seu
lugar, as folhas voaram e tudo se moveu. De repente, a fresta na janela
transformou-se em uma grande corrente luminosa e atingira o corpo deitado na
cama, em êxtase. Havia sido descoberta pelo céu. E uma nuvem tampou o sol; uma
rala sombra a encobriu.
Levantou-se rapidamente e fechou a janela. Coberta agora pela grande
escuridão, ficara só. O vitral se desvaneceu, o rosto de Jesus fechou-se. Não
havia mais nada na sala, além do Nada.
Entretanto, um simples ponto, uma imperfeição na janela deixou que apenas
um feixe de luz entrasse. Este se refletiu no espelho e atingiu um frasco, e
seu líquido azul transformou-o em um límpido céu, sem nuvens, livre...

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