quinta-feira, 14 de junho de 2018

Olhai o céu



Naquela sala, a luz tênue que entrava pela fresta da janela iluminava todo o ambiente. Haviam poucos móveis a interromper tais ondas luminosas; apenas uma cama, uma pequena cômoda com toda uma vidraria de perfumes, que transformavam a parede em um grande vitral colorido, refletindo as tendências religiosas da cruz que se sobrepunha e guardava o ambiente. E, atingido indiretamente pelas cores da perfumaria, estava um grande espelho emoldurado rusticamente, mas suavizado em sua dureza pela perfeição das imagens que projetava.
Ao entrar em seu quarto, ela esbarrara na porta, esta abrindo suavamente e aumentando a luz no ambiente. Fechou-a, de modo que toda a clarividência sobre a sala manteve-se restrita ao facho da janela, trazendo de volta o vitral antes sobreposto por aquela luminosidade.
Parou em frente ao espelho. Com um simples toque, soltou a toalha que cobria seu corpo nu. Pelo grande espelho, ela pôde visualizar mais plenamente seu belo corpo. A pele alva de sua face enrubesceu levemente, exibindo o pudor de sua rígida educação. Passou as mãos por sua barriga, levou-a a seus seios, massageando vagarosamente em busca de algo escondido. Como não encontrou nada além do familiar, respirou.
Na cômoda pegou um frasco, o abriu e passou seu conteúdo pelo corpo, emanando um característico odor de rosas pelo quarto. Massageava os ombros, levando as mãos pelo pescoço; logo desceu pela barriga e tentou alcançar a região mais extrema de suas costas. Braços, seios, cintura, nádegas. Aos poucos o creme se esvaía de suas mãos pelo seu corpo, indo até o interior das coxas.
Toda a massagem diminuía as tensões corporais, gerando, além da paz após a luta diária, prazer. Era impossível negar todo o prazer que tal ato produzia. Aproximava-se receosamente de seu púbis, o que lhe aumentava agradavelmente as sensações. Conduzida então por seus instintos, alcançou-o.
Em simples movimentos, deitou-se. Passou a se sentir bem, dona de si. Seus pequenos pés estavam esticados. Acariciavam-se mutuamente, em auto aceitação, cumprimentando-se como qualquer casal faria. Acompanhando o brilho da base das unhas, a fina tornozeleira cintilava devido à luz da janela, como se fosse um pequeno vitral dourado, de luzes rítmicas concorrendo com o grande vitral de perfumes.
Os olhos negros, que antes se duplicavam no espelho em imensos fossos misteriosos, agora estavam fechados. Percebia a tênue luz avermelhada, como um mundo todo realizado em sangue e pele, de luzes alegres em intensas variações, um dinamismo pertinente a tal ato. Os finos fios de cabelos negros espalhavam-se pela cama, entregando-se às rendas brancas do lençol.
Porém, em pouco tempo, a aparente calma foi substituída pela coerência entre o que sentia e sua carne. Os músculos passaram a se contrair em ritmo constante. Os lábios inferiores foram repreendidos pelos dentes; o pescoço passou a jogar a cabeça para trás e os cabelos, antes misturados à renda começaram a se mover, formando ondas energéticas de grande amplitude.
Os braços esticados passaram a se contrair, lutando contra sua intenção viva, sofrendo assim paralisias devido à rigidez. E os pensamentos, antes quase que suspensos, virou a sua face para a grande cruz, misturada às cores do vitral, e assim temeu por sua liberdade. Em parcos minutos, um gemido brando libertou os lábios de seu cárcere. Havia chegado ao clímax, aonde seus impulsos se contradiziam com seu pudor e regra moral.
Sentiu-se culpada.
O clima externo à sala era calmo. Lá fora, o céu azul cobria todas as regiões, mas as nuvens ainda mantinham sua fixa posição. Mas a ira divina sempre impõe dinâmica de sua criação. As nuvens foram destituídas de seu lugar, as folhas voaram e tudo se moveu. De repente, a fresta na janela transformou-se em uma grande corrente luminosa e atingira o corpo deitado na cama, em êxtase. Havia sido descoberta pelo céu. E uma nuvem tampou o sol; uma rala sombra a encobriu.
Levantou-se rapidamente e fechou a janela. Coberta agora pela grande escuridão, ficara só. O vitral se desvaneceu, o rosto de Jesus fechou-se. Não havia mais nada na sala, além do Nada.
Entretanto, um simples ponto, uma imperfeição na janela deixou que apenas um feixe de luz entrasse. Este se refletiu no espelho e atingiu um frasco, e seu líquido azul transformou-o em um límpido céu, sem nuvens, livre...

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