Mostrando postagens com marcador poesia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador poesia. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 30 de março de 2022

Oração a Exú


ANÔNIMO - Exú Mirim. Escultura popular brasileira em tamanho natural, esculpida em monobloco de madeira e policromada. 83 cm


Quisera eu, benvenido

Pudera eu, ter concebido

como Arnaldo Antunes

amado Exú, que de nada adiantam as palavras,

se não se brinca com elas, 

faz sexo com elas, 

as ignora, as obsedia.

Obsedar é minha nova obsessão.


Querido Exú, caverinhas à parte,

Espero tu às minhas costas,

guarda meu cu, minhas entranhas,

Meus pulsos, minhas [infâncias] andanças.


Pudera Eu, euzinho, 

deixar de ser pequenininho, um erê,

e alcançar as águas salobras do meu viver?

Nadar? Como, se perdi minha touca?

e minhas mãos, e minhas forças?

soçobro eu, em densas águas,

Mas ainda afundo,

nesse refrão insosso

Que não soube escrever.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Errantes caminhos*

Oxóssi


Pelas trilhas de Oxossi
Perscruto a selva em mim
Cruzo elos, seixos, caminhos turvos
Sem bússola, nem mapa
Sem estrelas no céu

Escorre seiva de minha têmpora;
Goteja no solo que descalço escavo.
Percorro rotas ambíguas, direções opostas,
Questões profanas e dores agudas

Oxalá pudesse, talvez um dia,
Das curvas que teci, compor a cartografia
Das cordilheiras deste coração;
Que resuma as inúmeras faces
Que se olham, em paradoxo, dentro de mim?


São Sebastião - Botticelli

* Uma cartografia heterotópica de cruzamentos subjetivos.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Des-dobro

Carybé, briga de cachorros, 1942


Alvejado
Pelo revés do que sou.
Escorre-me, lancinante
Gotas de quem outrora fui.

Um tiro seco, silenciado,
De palavras não ditas, atravessa
O sujeito que sou, cujos verbos
Só se conjugam no subjuntivo.

Poderia, quem sabe,
No avesso do revés,
Surgir, numa nova volta,
Um novo eu do que fui?

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Espaços

Retrato duplo, Lucian Freud


"Enquanto eu penso você sugeriu
um bom motivo pra tudo atrasar.
E ainda é cedo pra lá
chegando às seis tá bom demais
Deixa o verão pra mais tarde"

Los Hermanos


Contra a parcimônia dos minutos
pesam meus pés sobre a mesinha,
colam as costas através do encosto,
estofo-me nos móveis,
enquanto, em olhar, na contra-corrente,
sobrevoo os imensos campos além-nuvens.


Dizem meus pés que o chão se move, circula sem fim
em torno de urgências prêt-à-porter
Mas assim, elevados, cegos dessa fricção
emolduram a paisagem azul que vem com o vento
virando ao revés as folhas de minha agenda,
despreocupada assim com as datas,
num arco-íris branco de vazios por fazer...

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Sementinha

Mamãe sentia o estômago ressequido do sertão.
Quanta labuta de pouca dádiva
soçobrou na areia seca.
Mas do mar que me escorreu entre pálpebras
Irrigou o solo
Percorreu minhas planícies
Inundou vales
Brotou em mim
Maria flor

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

A forja

Fossils (black), Mohau Modisakeng - África do Sul
http://www.mohaumodisakengstudio.com

"Me deixem cantar até o fim"
Elza Soares
A mulher do fim do mundo


No corpo incandescente
A vida martela cada curva e marca,
Incessante,
A letra ainda vazia de meu grito áspero.

Dúvidas e dádivas que me corroeram
Sempre ali, onde escorreu o viscoso líquido vermelho
E enferrujou minha alma.
O bumbo surdo do martelo me fundiu
Me refez a cada nota, minuciosamente calculado -
Cada prego, cada destino, cada nota, cada lágrima.

Dizem que o samba é triste,
Dizem que a vida é triste.
A vida é samba,
A tristeza, quando samba, se contradiz
E retumba cada batida com as do peito
Na sincronia que nos dá força
e na melodia de que somos feitos.

No calor dessa forja,
Onde perco minha forma,
Liquefaço meus sentidos.
Se evapora minha lágrima
Fica o sal, me torno mar:
Persisto além do horizonte,
Sobrevivo.

terça-feira, 24 de março de 2015

Epitáfio a um pinguim II

Não tiveste enterro
Não terás missa de sétimo dia

                                           Ateu

Não realizaste despedidas
Não escreveste testamento

                                          Solitário

Não retornaste no terceiro dia
Não subiste aos céus

                                        Pinguins não voam
                                        Deslizam

(06/11/2009)

domingo, 6 de julho de 2014

Pai meu


Saturno devorando um filho, Goya

Eloí, Eloí, lamá sabactani? (Marcos, 15, 34)

Pai meu
Que estás sobre o solo
Profanado por vossas doenças
Mal vou à tua casa
Quisera eu ter essa vontade
Tanto em meu corpo como em meus atos

O pão de meu sustento hoje mantenho
Perdoe-me se isso te ofende
Assim como eu perdoo o modo como tu me ofendeste


E assim, me deixe cair em tentação
Fazemos as pazes com o mal,
Amém

terça-feira, 15 de abril de 2014

Sursum corda

As ninfas e o sátiro, Bouguereau.



Assim, porque és morno, e nem és quente e nem frio, 
vomitar-te-ei de minha boca. (Apocalipse, 3, 16)

Em nome da Mãe, do Filho, e do Espírito Guerreiro,
forjo minha fé em fogo e água,
reitero minha sina de ser triádico.

Sou Mãe de minha mãe,
acolho em meu útero estomacal tudo aquilo que queima e arde,
vivo nas fímbrias do sentido,
sendo opaco, insosso e deletério.

A cálida mão que afaga,
com suaves dedos pune amarga,
cintila sangue por entre as linhas
que recortam a certeza do ambíguo.

Como um machado que corta em ambos lados,
divido-me feito Janus,
cada face tende a um horizonte:
o corpo padece estático,
mas o espírito reitera-se ao infinito.

Amém.


sexta-feira, 14 de março de 2014

Se tem algo que diga o que é vida, é isto

Afinal

         Alvaro de Campos (Fernando Pessoa)

Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.

Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas,
Quanto mais personalidade eu tiver,
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora.
Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for,
Porque, seja ele quem for, com certeza que é Tudo,
E fora d'Ele há só Ele, e Tudo para Ele é pouco.

Cada alma é uma escada para Deus,
Cada alma é um corredor-Universo para Deus,
Cada alma é um rio correndo por margens de Externo
Para Deus e em Deus com um sussurro soturno.

Sursum corda! Erguei as almas! Toda a Matéria é Espírito,

Porque Matéria e Espírito são apenas nomes confusos
Dados à grande sombra que ensopa o Exterior em sonho
E funde em Noite e Mistério o Universo Excessivo!
Sursum corda! Na noite acordo, o silêncio é grande,
As coisas, de braços cruzados sobre o peito, reparam
Com uma tristeza nobre para os meus olhos abertos
Que as vê como vagos vultos noturnos na noite negra.
Sursum corda! Acordo na noite e sinto-me diverso.
Todo o Mundo com a sua forma visível do costume
Jaz no fundo dum poço e faz um ruído confuso,

Escuto-o, e no meu coração um grande pasmo soluça.

Sursum corda! ó Terra, jardim suspenso, berço
Que embala a Alma dispersa da humanidade sucessiva!
Mãe verde e florida todos os anos recente,
Todos os anos vernal, estival, outonal, hiemal,
Todos os anos celebrando às mancheias as festas de Adônis
Num rito anterior a todas as significações,
Num grande culto em tumulto pelas montanhas e os vales!
Grande coração pulsando no peito nu dos vulcões,
Grande voz acordando em cataratas e mares,
Grande bacante ébria do Movimento e da Mudança,
Em cio de vegetação e florescência rompendo
Teu próprio corpo de terra e rochas, teu corpo submisso
A tua própria vontade transtornadora e eterna!
Mãe carinhosa e unânime dos ventos, dos mares, dos prados,
Vertiginosa mãe dos vendavais e ciclones,
Mãe caprichosa que faz vegetar e secar,
Que perturba as próprias estações e confunde
Num beijo imaterial os sóis e as chuvas e os ventos!

Sursum corda! Reparo para ti e todo eu sou um hino!
Tudo em mim como um satélite da tua dinâmica intima
Volteia serpenteando, ficando como um anel
Nevoento, de sensações reminescidas e vagas,
Em torno ao teu vulto interno, túrgido e fervoroso.
Ocupa de toda a tua força e de todo o teu poder quente
Meu coração a ti aberto!
Como uma espada traspassando meu ser erguido e extático,
Intersecciona com meu sangue, com a minha pele e os meus nervos,
Teu movimento contínuo, contíguo a ti própria sempre,

Sou um monte confuso de forças cheias de infinito
Tendendo em todas as direções para todos os lados do espaço,
A Vida, essa coisa enorme, é que prende tudo e tudo une
E faz com que todas as forças que raivam dentro de mim
Não passem de mim, nem quebrem meu ser, não partam meu corpo,
Não me arremessem, como uma bomba de Espírito que estoira
Em sangue e carne e alma espiritualizados para entre as estrelas,
Para além dos sóis de outros sistemas e dos astros remotos.

Tudo o que há dentro de mim tende a voltar a ser tudo.
Tudo o que há dentro de mim tende a despejar-me no chão,
No vasto chão supremo que não está em cima nem embaixo
Mas sob as estrelas e os sóis, sob as almas e os corpos
Por uma oblíqua posse dos nossos sentidos intelectuais.

Sou uma chama ascendendo, mas ascendo para baixo e para cima,
Ascendo para todos os lados ao mesmo tempo, sou um globo
De chamas explosivas buscando Deus e queimando
A crosta dos meus sentidos, o muro da minha lógica,
A minha inteligência limitadora e gelada.

Sou uma grande máquina movida por grandes correias
De que só vejo a parte que pega nos meus tambores,
O resto vai para além dos astros, passa para além dos sóis,
E nunca parece chegar ao tambor donde parte ...

Meu corpo é um centro dum volante estupendo e infinito
Em marcha sempre vertiginosamente em torno de si,
Cruzando-se em todas as direções com outros volantes,
Que se entrepenetram e misturam, porque isto não é no espaço
Mas não sei onde espacial de uma outra maneira-Deus.

Dentro de mim estão presos e atados ao chao
Todos os movimentos que compõem o universo,
A fúria minuciosa e dos átomos,
A fúria de todas as chamas, a raiva de todos os ventos,
A espuma furiosa de todos os rios, que se precipitam,

A chuva com pedras atiradas de catapultas
De enormes exércitos de anões escondidos no céu.

Sou um formidável dinamismo obrigado ao equilíbrio
De estar dentro do meu corpo, de não transbordar da minh'alma.
Ruge, estoira, vence, quebra, estrondeia, sacode,
Freme, treme, espuma, venta, viola, explode,
Perde-te, transcende-te, circunda-te, vive-te, rompe e foge,
Sê com todo o meu corpo todo o universo e a vida,
Arde com todo o meu ser todos os lumes e luzes,
Risca com toda a minha alma todos os relâmpagos e fogos,
Sobrevive-me em minha vida em todas as direções!

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Memórias de um Benzetacil

Sunday, 1926, Edward Hooper

A vida infla a carne
 estira suas fibras,
 dói.

 Seguramos a respiração
 alguns segundos
 com expectativas agudas de uma fina agulha
 que transpassa e injeta
 por entre os músculos
 o misterioso líquido
 corrosivo
 que nos dá sentido.

Será a vida a dor da espera
 da respiração contida,
 ou a dor da penetrante realidade?

 Não sei.
 Só sei que entre esta e aquela há um espaço,
 um alívio de expiração
 talvez chamado felicidade.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

#morteaoemoticon



Estou farto da virtualização
da descorporificação da vida.
Não é na pele que se arrepia de prazer,
no estômago que dói a angústia?
Não são as pupilas que se dilatam no medo,
os músculos enrigecidos na raiva, o pênis na luxúria, o dedo na petulância?

Ora, se o que se vê na tela são máscaras,
que carnaval duvidoso é este,
que não vê atrás do papier-machê
as cicatrizes de uma longa vida?
que não vê que o beijo só é macio pela união das duas eternidades encarceradas
nos quatro lábios e duas línguas que se tocam,
as mãos que afagam acariciam toda uma vida,
realizada ou não?
À todos os que tomam bits por pessoas, cuidado,
pois assim acabam por esvanecerem-se no grande oceano das séries binárias,
e perdem-se de seus próprios corpos, prazeres e história,
tornam-se frios transistores do cotidiano.

sábado, 8 de setembro de 2012

Fruição e Fricção


Série Atlas, Fernando Vicente, Espanha
https://www.fernandovicente.es


Costuro-lhe todos os lábios,
escavo então novas profundidades.
Dou-lhe uma nova geografia.

Todo tapa dói, pois só se espanca o ser amado
As cartas de amor sangram ódios insuperados
e tingem de escarlate, por entre as letras de Moisés,
o puro vinho produzido
por fruição e fricção.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Abaixo à flacidez!


Zepelim Hindenburg


Na respiração descompassada,

altos triglicérides, baixas serotoninas
entorpecido de concreto e aço e sol e carbono

O flácido pênis que pende do pescoço sufoca o grito
pesado da gravidade... das ações e baixas de capital
da gravidade dos obituários e cartórios,
das convenções e do peso do ouro.

Quero ser túrgido!
pegar fogo como zepellins de hidrogênio,
desbravar o cinzento metálico das alcovas burocráticas,
e encontrar a efeméride selva selvagem que se chama liberdade.

Abaixo à flacidez!

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Poema: Ainda

Em meio à dureza das normatizações, me rompem tais emoções:

Ainda

Sobre o que ainda não foi dito
sobre o que muito já se disse, se sentiu, se sofreu
preservado feito fóssil nas densas sedimentações
depositadas sobre os corações, as rugas, as lágrimas.

Muito se nasce e se resseca na fértil terra de nossas almas,
que se muito arada há de necessitar de pousios
quando as chuvas acalentam as ressequidas rachaduras
quando o Nordeste se alumia em verde flora
e exala o perfume da bela rapariga
que se apronta, que acasala, que se achega nos ombros e sopra o ouvido

Arre! os tremores da pele que brotam em pêlos hirtos
são novas florestas que nascem ao comando teu,
as mesmas que nascem... e depois morrem, e se sedimentam em palavras
no corpo nu
e fertilizam as frases de palavras desvirtuadas
e brotam em dizeres tampouco puros
e abrem valas entre os lábios
de sons não professados, ainda
.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Ícaro submerso na luz

Despertar de Ícaro, Lucílio de Albuquerque (1877–1939).

"Eu quero mais é que me faça flutuar essa tal gravidade
forjar minhas asas nas duras
duras penas da verdade"
O Feliz Amor do Felino Ferido

Como voar sem erguer os braços,
atingir velocidades ultrassônicas e distâncias atmosféricas?
Como ser contido, como escolher o caminho do meio,
ser moderado, ter a parcimônia do entre-segundos?

Estou siderado!

Arregaço minhas mangas, abro minhas asas,
ignoro as físicas algorítmicas e frias, viajo direto à luz


Será que queimo de velocidade ou de temor?
Derreto minhas possibilidades em lágrimas ferventes,
chorando a dor em Technicolor, no vermelho-sangue das costas
Chibatadas solares
Piedades nebulosas
com suas gravitações newtonianas

Após o vértice dos sonhos,
no torpor de mil brilhos estelares
resvalo na luz com as pontas dos dedos,
sucumbo ao pecado
ao corpo
ao inferno,
...

Submerso e disperso na verdade ondulante e incerta
desfeito em duras penas:

Com vistas esbranquiçadas não mais vejo,
como se veria.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Pay-per-view

A devassidāo dos relatórios,
a lubricidade que escorre do relógio de ponto,
gozam índices de desempenho pelo vai-e-vem da produtividade...
todos se car-comem entre engrenagens,
todos de ludibriam nas fantasias gerento-fálicas...
o capital-interrompido, sempre a prolongar o consumo tântrico, que posterga o clímax ao post-mortem...
nada sobram, além de ligeiras fumaças de cigarro, onde soçobram as esperanças.

O entumescimento burguês,
a frigidez proletária,
o que explode e transborda nas alcovas bancárias,
o fluido viscoso de nossos extratos,
em jatos sórdidos por entre juros e taxas de crédito...

‎$$$$$$$$$$$$$$$$$
grita em momento de glória, por fim,
míseros segundo antes do débito em conta,
momento ínfimo de trégua do desejo e de seu recomeço...

tudo é seduçāo no violento mover do dolar,
que a tudo representa e a tudo substitui.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Viver de fraldas não previne a cagada...

"Onde cheira a merda
cheira a ser.
homem podia muito bem não cagar,
não abrir a bolsa anal
mas preferiu cagar
assim como preferiu viver
em vez de aceitar viver morto."

Artaud, A. Para Acabar com o Julgamento de Deus.

terça-feira, 15 de maio de 2007

À alma platônica...

... em seu caminho de "o fora da clausura" à "clausura do fora", respondo, com palavras que faço minhas:

Eu não gosto do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto de bons modos
Não gosto

Eu aguento até rigores
Eu não tenho pena dos traídos
Eu hospedo infratores e banidos
Eu respeito conveniências
Eu não ligo pra conchavos
Eu suporto aparências
Eu não gosto de maus tratos

Mas o que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto de bons modos
Não gosto

Eu aguento até os modernos
E seus segundos cadernos
Eu aguento até os caretas
E suas verdades perfeitas

O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto de bons modos
Não gosto

Eu aguento até os estetas
Eu não julgo a competência
Eu não ligo para etiqueta
Eu aplaudo rebeldias
Eu respeito tiranias
Eu compreendo piedades
Eu não condeno mentiras
Eu não condeno vaidades

O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto do bom senso
Eu não gosto de bons modos
Não gosto

Eu gosto dos que têm fome
Dos que morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem…

Senhas
Adriana Calcanhotto

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Imitação barata de Buarque

Àqueles que me vêem castrados, edípicos e incestuosos

Àqueles que me tomam por insensato, profano e promíscuo.

À todos que me bendizem ou que me desdizem, seja lá o que for

À nós que me define.

Outro lhe pague.