Vou tentar aqui esboçar um pouco do que foi minha história de pesquisa desde a faculdade. Muitos me questionam sobre o que pesquiso, e na verdade nunca soube dar uma resposta. Nunca soube nomear o que faço, pois acho que, como é uma pesquisa teórica, ela não tem um foco muito definido, ou eu que nunca o defini muito bem. Assim, resolvi tentar esboçar aqui minhas atividades.
O nome do site deriva do termo "Deus ex machina" (Latim: Deus surgido da máquina), que indica o surgimento de algo que, introduzido repentinamente na trama ficcional, amarra as pontas soltas e dá sentido a história.
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domingo, 15 de julho de 2018
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
Espacialidade e temporalidade do sujeito
Hoje ainda se imagina que as pessoas são sujeitos, monadas espaciais, possuidoras de uma interioridade localizavel, em relação a um fora. A temporalidade, se o afeta, atinge-o por inteiro,e o modifica por igual. Essa concepção espacial leva-nos a necessitar de um conceito que explique a mudança temporal que o sujeito sofre. E nesse sentido que fala-se em necessidade, desejo, motivação, anunciando um vazio a set completado, completude que e a chave da sobrevivência do sujeito.
Ora, se por outro lado concebemos a subjetividade não mais a partir do espaço, mas sim pela temporalidade, passa-se a conceber a mudança como imanente ao devir que e o sujeito mesmo,e não algo que o afeta de fora. Há sim auto e hetero-afecção, marcas constitutivas da centralidade do devir.
Assim, não e a falta que move o sujeito, não e o desejo de completude. O sofrimento humano não ea prova canal de que sonos imperfeitos. Historicamente, houve uma depreciação social dos humores tristes, e o favorecimento de uma alegria que na realidades dee da por negação. A pessoas ser manipulam quimicamente em busca da felicidade quis a sociedade promete,tomam analgésicos contra a vida. A dor, mais que evitada, deixou de fazer parte do registro psíquico, e quando irrompe o trauma não e assimilado. Cabe pensar bem o que a sociedade fez com os componentes agressivos, tão como se fez com os sexuais.
quarta-feira, 21 de março de 2012
Big Bang ontológico
A ontologia do Ser Bruto de Merleau-Ponty aponta para uma região de promiscuidade entre eu-outro, razão-desrazão, sujeito-mundo. Região na qual emerge as primeiras diferenciaçoes de sentido. O que há para além disso?
Existe, como na vida, uma região anterior ás primeiras diferenciações, uma fusão inicial como berço de todo o Ser. Um além da metafísica? Um Big Bang, anterior às leis da fisica?
Não sei se há algo ou um vazio, mas sei que somente podemos permanecer em um entoeno [?], como se nosso saber e sentir fosse um toro, mas no qual nos encontramos não circulando um vazio, mas circulando a nós mesmos. O ser é auto-contido e, se não há ser, mas um constante devir e jogos de forças, a tese fica ainda mais estabelecida, pois esse se dá na multiplicidade, e a questão do uno desvanece.
terça-feira, 13 de março de 2012
Darwin, e que mais?
A vida é somente a sobrevivência do mais apto? Se assim fosse, a teoria somente parece dar conta da luta das espécies, de um ambiente cuja sobrevivência é escassa, custosa.
Entretanto, o que se dá nas espécies que estão bem adaptadas, em um ambiente estável e pouco selecionador? Ou quando uma gama de mutações conseguem se conciliar no ambiente, sem uma disputa?
Há teorias que abarcam o excesso vital, quando o organismo se multiplica, se diversifica, começa a exibir uma mais-valia vital, que não se dá como um aleatório, mas se organiza, se estrutura conforme suas condições de campo.
domingo, 30 de outubro de 2011
"Imprudente"
Como falar em prudência em Deleuze... e como não buscar uma reflexão séria de seus conceitos, e evitar cair em banalizações ou em usos indiscriminados... uma filosofia com recomendações... críticas, mas cujos caminhos, múltiplos, não podem diretamente estabelecer seu "bom senso"...
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
O carater obsessivo como defesa frente a fascinação da perda de si
A pulsão em seu devir é um processo de dessubjetivação, de perda de si. Não é a toa que esse movimento defensivo muitas vezes se apóia nos movimentos de territorialização e de estratificação, ou seja, realiza uma mescla de estruturações dinamicas religiosas, politicas, e principalmente de cunho moral e econômico, pois hoje a moralidade também tornou-se moeda, o que já se evidenciava pelas conexões entre a analidade e a rigidez econômica e moral que aparece no obsessivo.
Assim, pode-se observar uma resistência pessoal e social contra o movimento de dessubjetivação implicados no devir. A fascinação do desejo, ou seja, o risco de entrar em um fluxo de fuga sem volta, é supervalorizada e leva a ataques intensos da maquinaria bélica do estrato e até a micro-facismos.
Outra consideração a ser feita aqui é acerca das interpretaçoes de cunho social-centrada e de sujeito-centrada do comportamento do individuo. A norma religiosa não é uma reedição da lei paterna, Deus não é somente um Grande Pai, mas isso não significa que não haja uma rede de equivalências que os liguem entre si e atribuam um sentido que nevague em ambos sentidos. O pai também se constitui como tal tendo como modelo o de um Deus que a tudo sabe.
Ao se compreender a subjetividade temos de pensar em arqueologia, não em genética. A arqueologia é o passado e a rede de relações que formam o fundo de um determinado fato, incluindo sua abertura ao futuro. Não há aí relação genetica, causa e efeito, mas uma rede diacrítica que destacam sentidos por compor o "entre" do percebido.
Como sempre, acabo em Merleau-Ponty.
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
Resumo de minha Qualificação
OLIVEIRA, V. H.; FURLAN, R. Desejo e Negatividade na filosofia de Merleau-Ponty. 2011. 85f. Qualificação (Mestrado) – Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, 2011.
O presente trabalho visa discutir, a partir das últimas obras de Merleau-Ponty, a articulação entre sua noção de desejo e o conceito de negativo. A pesquisa buscou primeiramente traçar o que o filósofo denomina de arqueologia do contato primordial do corpo com o mundo, buscando a camada pré-objetiva de abertura perceptiva a ele, a sentidos que não foram constituídos pelo sujeito, que o ultrapassa e lhe determina vetores de sentido. Os temas arqueológicos enfocam as noções de instituição e passividade, a relação da corporeidade humana com a animalidade, e o esquema corporal como abertura estesiológica e libidinal ao mundo, questões que nos abre a dimensão transtemporal e transespacial do corpo, que arrasta consigo um passado que retoma e antecipa as possibilidades do porvir. A partir desses tópicos, compreende-se que o desejo é busca de ser o dentro do fora e o fora do dentro no sistema de trocas do corpo com o mundo, em sua união por meio de distanciamento e estruturação do contato do corpo com o mundo. É nesse sentido que se podem ressaltar algumas noções psicanalíticas, pois elas permitem apreender essa topologia arqueológica do contato, as estruturações de sentido que nos permitem significar o mundo, e que não são de autoria de uma consciência constituinte. Por outro lado, o trabalho discutiu a idéia de negativo na obra do filósofo, a partir de seu diálogo com Sartre, tratando-o a partir da noção de invisível, avesso do ser e que está em seu interior, como um oco eficaz que se manifesta à percepção pelo modo de ausência. Partindo dessas construções merleau-pontyanas, discute-se a relação desejo-negatividade, a partir da crítica que o filósofo faz a Sartre e à própria Psicanálise, que interpretam o desejo como, respectivamente, estando destinado ao fracasso, e de ser em sua essência falta por um objeto para sempre perdido. Em vez de tratar o “negativo do desejo” como fracasso ou falta, partimos da leitura realizada por dois comentadores para conceber a posição de Merleau-Ponty nessa questão. Por um lado, Barbaras, que salienta o desejo como inesgotável enquanto é modo de relação com o originário e, por outro, Zielinski, que coloca o desejo como relação com um mundo que é, em si, inesgotável. Assim, buscou-se compreender que é por excesso, e não por falta, que se dá a negatividade na relação desejante com o mundo.
Palavras-Chave: Merleau-Ponty, desejo, negatividade, arqueologia do sensível, psicanálise.
Afogando-se na net
Venho há algum tempo buscando experimentar as interconexões que o Sistema Google de dominação virtual implementou. Como em artigo que publiquei (o único até agora...), pude estudar como a interface binária interfere até em nossa auto-imagem, ou seja, em como o sujeito se empenha na construção de si.
E assim são as redes sociais, os maiores produtos atuais da internet. O sujeito ali se auto-constrói, conforme se vê, conforme seu passado lhe permite ver-se, mas as condições de construção são grandemente determinadas de fora, do meio subjetivante no qual nos inserimos diariamente, e que abriga o presente texto.
à aqueles que buscarem experimentar, tendo desde já o risco de afogamento, pode olhar a barra superior do Google e, caso tenha uma conta, passar por seus variados serviços, e verificar suas conexões, podendo também associá-las com o Twitter e o Facebook. à quem ingressar nesta viagem, recomendo cautela.
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Ócio e tédio
Muita confusão se passa entre os dois devires. Os sujeitos em inatividade aparente são visto principalmente através da lente moralizante do ócio, e quando dizem-se entediados, acabam por serem interpretados como preguiçosos a se desculpar por sua diminuta moralidade, pela qual se justifica seu distanciamento e falta de desejo, ou ao menos de esforço, pelas atividades laborais.
Entretanto, muita diferença há entre as duas palavras que intitulam esse texto.
Ócio indica simplesmente um estado do sujeito no qual este se encontra sem exercer nenhum tipo de atividade. As mentes moralistas, que por se prenderem às exigências capitalistas julgam a todos, de modo reativo, exaltando suas qualidades morais de "ser trabalhador" (mas torcendo avidamente pela sexta-feira e excomungando a segunda-feira de sua inexpulsável posição temporal - a de ser após um dia sem trabalho); estes colorem de pútridos odores os momentos de ócio, os quais não se permite, e julga-o espaço aberto aos labores de outro ser, demoníaco.
Ora, é justamente aí que confundem o ócio com o tédio. Em si, a ociosidade mostra-se como aquela que nos retira do cotidiano, do estrato capitalístico que nos determina, e abre largas vias desterritorializadas, preparando-nos para a criatividade, o novo, a pura expressão, se é que algum dia esta foi pura.
Não que não haja aí um princípio demoníaco: essa capacidade desterritorializante em si é fator que desmantela o habitus e a repetição capitalística de valores, e assim torna-se um princípio maldito. Assim se vê na opinião social e na vida de muitos artistas e obras.
Mas esse poder destrutivo, também demoníaco, que é enfocado quando se descreve o ócio na opinião popular, esse é fruto do tédio. Quando as águas caudalosas do devir devasta os estratos, e acaba por dirigir-se a extinção brutal de tudo e de si mesmo, isso que Freud dizia ser repetição pulsional de Tânatos mas que é a reverberação do tédio.
sábado, 16 de julho de 2011
Psicanálise, seu exercício e religião
Psicanálise, seu exercício e religião
http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-50/anais-da-religiosidade/a-cura-pela-palavra
Sinto que o artigo da Revista Piauí expõe um conflito, que não pode assumir pois não o coloca claramente a si. Por isso, talvez, tenho a impressão de que ele não assume lados, não traça para si as linhas de força desse debate.
Há no texto duas formas de confronto: Psicanálise X Religião e Psicanálise oficial X Psicanálise extra-oficial. O segundo conflito me parece mais pertinente no momento.
A Sociedade Psicanalítica Ortodoxa do Brasil coloca uma questão à prática e a instituição Psicanalítica: ela questiona a hegemonia que a sociedade se institui acerca de um conhecimento que, atualmente, faz parte do compêndio universal. Questiona o que é a psicanálise enquanto instituição, enquanto política. Nesse sentido, pode-se até vislumbrar seu "ar revolucionário", sua busca por uma libertação do ensino psicanalítico das amarras burocráticas da instituição. É importante questionarmos o que é a psicanálise e como ela funciona, qual é a teia de valorização política que a rege.
Bourdieu nos apresenta como o discurso está entremeado de uma rede de valorização do capital simbólico e social. O que é um bom psicanalista? claro que a teoria em si apregoa como tal profissional deve ser, mas quando este está inserido no mercado, ele acaba por se amarrar na rede de valorização social dos capitais. Mesmo durante seus estudos, sua formação já se dá seguindo as linhas dessa capitalização do conhecimento. Assim, os nomes e a fama, a imagem enquanto moeda, acaba por ser determinante, já que o público, analisandos, só podem se relacionar com os analistas por esse índice de valores e também pela transferência, de modo que as relações entre o interior do sentimento individual e o exterior das determinações sociais ainda constituem um problema a ser mapeado.
O que é o analista? primeiro um nome, um adjetivo, e um valor subjetivo-social, teia de determinações que pesam de acordo com o concreto da relação no momento de seu estabelecimento. Como o analisando chegou ao analista? como soube dele, qual a fantasia que o moldou primeiramente? Se formos percorrer em detalhes essa "mecânica quântica", só teremos como respostas os infinitesimais das possibilidades humanas.
Há uma certa independência das determinações das sociedades psicanalíticas, de modo que o debate político pode esbarrar no muro burocrático do grupo-terror que visa manter a unidade e a coesão do grupo. Por exemplo, em temas que se encontram mais sensibilizados socialmente, como por exemplo o status da homossexualidade. Esse ponto é chave na sociedade atual, pois toda nova abertura de conceitos e preconceitos sociais cria uma fragilidade crítica que pode atrair e estruturar discursos extremistas, ou novas formas de subjetivações capitalísticas. Mas, além disso, existe o movimento legal, que tem por função legislar sobre essa movimentação de práticas e ideais, de forma a prevenir (e isso estou idealizando) abusos. Por exemplo, na patologização da homossexualidade. Há um movimento legal de interdição desse conceito, mas também a resistência de grupos ou profissionais que mantém seu status patológico. Essa não é uma questão pontual, mas epistemológica em sua generalidade: qual é o impacto e a responsabilidade de nossas produções teóricas e as práticas subjetivantes que as permeiam? Não é somente uma questão de escolha teórica, mas sim de posicionamento moral frente às ideias que se divulga em relação ao movimento social.
A liberdade não é uma concreção atual de nossos atos, mas um horizonte, uma áurea invisível que permeia o "entre" de nossas determinações... não epi-fenômeno, pois ela é tão real quanto o invisível do visível de Merleau-Ponty.
sábado, 11 de junho de 2011
Subjetividade, dobra e psicologia
Vê-se que o bebê não é sujeito constituído. Pode-se dizer que a criança que nasce é, primeiramente, uma dupla antecipação, de acordo com o que se pode acessar sobre ele (pois o nascimento do sujeito em si fica na ordem do invisível de direito, como punctum caecum):
- Biológica: enquanto estrutura fisiológica, percebe-se nos estudos embriológicos uma relação de abertura, tanto a um passado arcaico da vida que transparece nos momentos evolutivos da espécie, quanto a um futuro, pois toda estruturação se dá na antecipação das formas futuras do corpo.
- Cultural: o sujeito-a-nascer é introduzido desde antes de seu surgimento na cadeia simbólica, sua posição é pré-determinada e sua vida estruturada pelas expectativas familiares, sociais e culturais (mesmo também ecológicas, ambientais, metereológicas, políticas...);
Assim, o sujeito é uma dupla dobra, dobrada e auto-dobrável:
- As linhas biológicas e culturais dobram-se em uma singularidade, em uma subjetividade;
- Entretanto, a subjetividade tem como característica o fato de ser uma estrutura estruturada e estruturante, ou seja, ela é uma abertura de campo no sentido merleau-pontyano, ela abre uma virtualidade enquanto Unwelt bio-psíquico-cultural, na qual pode efetuar dobras e auto-dobras. Isso fica claro quando se analisa a constituição da imagem corporal para o bebê. De acordo com Schilder (A imagem do corpo, Martins Fontes, 1999, p. 215), o bebê inicialmente trata seu corpo como trata os objetos inanimados, pega-se como se pegasse um objeto qualquer. Nesse momento, o corpo práxico distingue-se do corpo visto e tocado, há como que uma ambivalência incompleta, uma disjunção que mantém o bebê em uma exploração ativa, tanto do mundo externo quanto de seu corpo como parte deste mais próxima a ele. O que ocorre é uma articulação progressiva entre o corpo perceptivo e o corpo motor, que conjugam como duas faces de um mesmo esquema corporal, nunca totalmente identificáveis (nunca toco-me tocando), mas também nunca separadas, de modo que todo movimento requer uma contrapartida perceptiva, e toda percepção é sobresignificada com o movimento e a postura do corpo.
Conceber a dinâmica do esquema corporal é compreender que o sujeito dobra-se a si mesmo, nunca completamente, nunca se fechando ao Fora, mas dobra-se a partir do Fora, através do Fora, e não somente pelo Fora. Dessa forma, pode-se evitar uma compreensão empirista na qual tudo é exterior a tudo, e uma concepção idealista, na qual tudo é o Dentro da consciência. A consciência mesma é uma abertura às estruturas externas através das dobras que a constitui como tal, ela possui um ponto cego, perspectivas, ela é situada em um mundo o qual também constitui, mesmo que inconscientemente.
Dessa forma, a psicologia enquanto intervenção na relação das subjetividades não pode ser dada como relação de conteúdos subjetivos, mas sim como escavação lateral, como re-constituição de um conjunto de dobras e redobras (nunca estáticas, mas sempre "semi-padrões" de dobra, como os atratores estranhos da matemática da complexidade), e a análise é uma busca de acesso lateral ao sujeito.
sexta-feira, 10 de junho de 2011
subjetividade como singularidade topológica: o toro
O sujeito enquanto dobra, singularidade do Fora, é constituído enquanto um toro de dobras, de potencias de dobras, em torno de um centro que, em si, não existe. Seu corpo possui dinâmicas centrípetas (Eros) e centrífugas, que agem como um atrator estranho, atrator que não existe por si, mas pela conjuntura de forças bio-psico-sociais.
Se há o fora, este só pode ser acessado indiretamente, como um rompante do Real. Se há o dentro, esse é constituído de forças que foram capturadas no processo de subjetivação, que é social
Mas que depende de certos campos instituídos para se produzir.
Deve-se compreender a Natureza como campo dos campos, aquele que está entre a plena estratificação e a pura desterritorialização, Território de lugar nenhum em todos os lugares, vazio positivo, virtual concreto, abertura do "há".
terça-feira, 7 de junho de 2011
o artista e a obra
Somos constituídos de um movimento de subjetivação que se valoriza nas subjetividades individuais. Ainda somos herdeiros dos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, de modo que o sujeito credita a si mesmo os esforços e a criatividade de suas ações, cujas condições de produção há muito já foram determinadas.
Dessa forma, toda obra simbólica, valorizada pela economia cultural de um determinado contexto, acaba por se referir a um sujeito produtor. Sim, podemos atestar a veracidade disso, mas esse sujeito surge somente como uma singularidade de forças, sobre a qual não possui responsabilidade individual.
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Esse símbolo, o único que consegui produzir pelo parco poder da representação binária que disponho no momento, visa mostrar que o traço central, a trajetória do indivíduo concebido de forma linear pela visão atual, são na verdade o entrecruzamento de uma série de linhas de registros diferentes.
Assim, a responsabilidade de um sujeito por sua obra é a responsabilidade de seu mundo, e assim ele se esvanece em uma nuvem de sentido mais amplo, de um emaranhado que nos ajuda a compreender as condições de produção de sentido de uma determinada época.
Assim, quando Lady Gaga se diz portadora da revolução do POP, ela não constata sua potência individual, como talvez pense, mas se mostra como uma nova estruturação das forças culturais capitalísticas...
quarta-feira, 4 de maio de 2011
Orquestra subjetiva
Uma orquestra reúne uma grande complexidade de sons que se compõem em uma estrutura intrínseca, uma melodia. A melodia é maior do que a soma dos instrumentos, de suas notas e tons, é imanente a esse território, porém o transcende, está sobredeterminada. Em cada nota, se é que esta pode ser isolada, encontra-se holograficamente toda a sinfonia que, como fundo, lhe determina seu valor.
Mas não é somente necessária a sinfonia para que se apreenda seu sentido. Enquanto é sobredeterminada, sua estrutura multidimensional possui lados ocultos, sentidos possíveis, não enquanto moléculas que flutuam em um para-além dos sons, mas que se escondem em suas junturas, em seus meandros, e que florescem em diferentes perspectivas, dependendo de quem a ouve.
O ouvinte é um mediador de equivalências, ele possui, devido ao rastro arqueológico que lhe compõem passivamente e com o qual ativamente ele contribui. Sua função é deixar que as diferenças o atravessem, que o sistema de abertura que o define destaque as articulações daquilo que ouve, seguindo suas linhas. Não que ele acrescente à melodia algo somente seu: como os diferentes graus de acuidade auditiva, sua percepção se abre diferencialmente para determinadas estruturas sonoras. Assim, o que ele percebe também é seu, mas na verdade o ouvinte pertence mais a sinfonia do que ela a ele. Em seu devir temporal, a sinfonia clama o ouvinte, pede que seja ouvida... é dessa forma que as músicas entram passivamente em nosso pensamento, e ali se cantam independente de nossa vontade, até que por si só se dissipem.
A sinfonia apresenta-se misteriosa, como algo que está para ser revelada pelo ouvinte...
Não é de música que aqui se fala... o mundo é uma sinfonia... o outro se apresenta para nós como uma sinfonia, sua fala possui um movimento que está fora de nós, movimento que nos cabe revelar... a sensibilidade que desenvolvemos ao outro é uma forma de conexão com este, nossos corpos se unem como dois líquidos se misturam homogeneamente, mas como duas frequências que se interferem, que se ressoam... claro que, eu e o outro, não somos melodias fechadas, somente abertas a uma profundidade que desde sempre já estava ali, mas somos ambos aberturas ao mundo, minha ressonância causa uma mudança qualitativa na do outro, a do outro em mim.
segunda-feira, 21 de março de 2011
Rascunho para possível Doutorado - Por uma Ética demoníca
Se aceita-se a tese kantiana das grandezas negativas, e se se passa a tratar a violência, o ódio, o "Mal", não enquanto uma ausência do amor, mas sim como algo de existência "positiva" em si mesmo, Urge uma reflexão sobre a Ética cujo Bem torna-se Unidade e Plenitude, para assim se compor toda uma rede múltipla de valores e retirar o homem dessa dualidade entre bom selvagem e mal radical.
- A relação entre tais grandezas em si estipulam seus próprios valores: em que determinado contexto de relações que determinados acontecimentos adquirem o caráter de benéficos ou de maléficos em nossa vida cultural, psíquica e até biológica.
Tenho literatura para tal: Merleau-Ponty, Garcia-Roza, Bataille.
Há uma estruturação humana entre desejo e morte, entre a violência e a vida, não como antípodas, mas formas de expressão do mesmo Ser. Freud se deparou com isso ao examinar a pulsão de morte.
sábado, 20 de novembro de 2010
Desejo como excesso do mundo
Merleau-ponty encarna a alma no corpo, e o corpo no mundo sensível. Sou um visível entre outros, mas também vidente deste. Como estou no meio do mundo, o que vejo não é de fora, mas facetário, sob perspectivas imcompossíveis, e com uma profundidade invisível. Por fim, há o horizonte, aquele que se apresenta sob o modo de ausência.
Não que falte algo. O horizonte está ali, no fim de nossa percepção, quase que por detrás dos vales e montanhas que apreciamos à vista. Desde que Colombo experimentou no ocidente a circunferência em que vivemos, corremos ao Oeste como que perseguindo o final de um arco-íris. Sempre presente, mas nunca alcançado, este é o horizonte. Galeano já dizia que a função deste era não o objetivo da chegada, mas o próprio caminhar. Como uma teleologia sem fim, o Horizonte é o que está presente e eficaz, mas sob o modo de sua ausência.
Entretanto, essa não é uma falta, como numa totalidade em que nos falta uma peça impreenchível. é a totalidade da abertura de um mundo auto-contido, da Terra, um horizonte que está ausente pelo excesso. Nunca alcançamos o horizonte, pois o mundo sempre nos excede. Esse é o Grande Outro Lacaniano, não um oceano de ligações significantes que nos transpassa, mas sim o oceano mesmo, a terra mesma, a atmosfera mesma, o fogo mesmo, a carne de nossos corpos. A grande mistura iminente, a invasão bélica de um no outro, o infinito assintótico jamais determinado matematicamente, o buraco negro que retorce o espaço em um toro que cria o horizonte de nossas possibilidades.
Desejo é ser visível vidente, aberto a um mundo inesgotável, condenado a se expressar a cada gesto, até a morte, quando tornamo-nos apenas um visível, ainda portando alguns privilégios funerários, mais agora totalmente transpassado pelo sensível, somente com uma iminência fantasma de sua anterior atividade.
A pessoa amada não é objeto substitutivo do seio, como em psicanálise. Primeiro, porque o seio não é uma glândula mamária, mas um portador de uma forma de ser no mundo, uma relação com a boca, de incorporação. um sistema, como em Deleuze das máquinas emissoras e cortadoras de fluxo. É um modo geral de ser, um sistema de equivalências.
E a pessoa amada, mesmo que inserida nessa corrente de sentidos perceptivos que tem como nível a primeira relação com o seio, não é um objeto isolado. Ela é uma composição com o meio, como em Proust, onde as mulheres remetem às paisagens e às paisagens remetem às mulheres. o desejo é social, como em Deleuze, pois visa uma generalidade, uma composição, um sistema de coisas, pessoas, paisagens, ou seja, um mundo. Por generalidade última, originária, o primeiro berro do bebê é desejo de mundo.
Não há um prazer e uma frustração vinculados à satisfação ou não de um desejo. O desejar já é ato de fruição de mundo e de atrito com ele, gozo e desejo, em termos lacanianos, se imiscuem no movimento.
Deleuze compõe sua filosofia em termos dinâmicos, seus conceitos são linhas de força, compõe uma geografia. Os conceitos merleau-pontyanos são campos de força, compõe uma topologia. Não há nele puro movimento, como Deleuze e Guattari, nem o estatismo da filosofia cartesiana. é uma tensão, um dinamismo, uma errância que não sai do lugar, como o nômade deleuziano. A carne não é tenra, ela é trêmula, tensa como um músculo prestes a pulsar no movimento, como se a duração do tempo pudesse ser compreendida sem que fosse dividida em momentos estáticos, nem isolada como uma positividade em si.
Não há "devir" em Merleau-ponty, mas este também não lhe falta.
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
Quando os dados extrapolam nossos olhos...
Um dos problemas das teorias sistêmicas é que lhes faltam concepções sobre as mudanças de fase. Conceber uma estrutura a partir da complexidade lhes parece ser uma forma de unir diversas disciplinas em um único movimento. Entretanto, acabam tendo problemas semelhantes às das disciplinas "solitárias", que buscam reduzir os fenômenos a um único universo: o psíquico ao biológico, e este ao físico-químico, ou os fenômenos psíquicos-sociais à história.
Por exemplo, a rede de peptídios que interligam os sistemas neuronal, hormonal e imunológico foi denominada de rede psicossomática. Ora, é claro que nossa psiquê não existe sem o cérebro (não que este somente faça a diferença, ele é um momento em um desenvolvimento das espécies animais, juntamente com inúmeros outros desenvolvimentos simultâneos), mas ela não se confunde com ele. Esses grandes domínios, que geram inúmeras brigas em suas articulações, como:
- o psíquico com o social (Sociologia e Psicanálise, de Bastide, dá um amplo panorama dessa questão);
- o psíquico e o social com o histórico;
- o biológico com o psíquico;
- a passagem do físico-químico ao biológico, não tenho certeza do andamento da área. Parece haver um acordo maior;
- também entre dimensões físicas de estudo, como o cosmológico e o quântico. ainda encontra-se em estudo uma forma de integração da teoria de Einstein no corpo da mecânica quântica, um teoria quântica da gravidade. A teoria da supercordas com 10 dimensões parece ser promissora.
Entre eles, há muito o que compreender, principalmente porque parece haver uma "quebra de leis": as leis físicas da Mecânica quântica não conseguem abranger a gravidade, pois essa força é muito pequena e somente efeito a distâncias cosmológicas. Outro exemplo, o mundo físico e químico parecem corresponder a leis mais rígidas e matematicamente descritíveis, enquanto que a vida, segundo o filósofo Merleau-Ponty (livro "A Natureza"), parece seguir a normas mais flexíveis, que determinam um limiar máximo e mínimo (assim, o estado normal de um fenômeno concentra-se em uma faixa, como nos hemogramas: não há um número exato de leucócitos no ser humano normal, mas um máximo e um mínimo). (ver "Mundo como expressão")
Já no psíquico, entre consciência e inconsciência, Politzer coloca haverem diferentes linguagens. Uma linguagem pode ser grosseiramente descrita como uma estrutura expressiva aberta, cujo sentido ultrapassa a somatória dos termos que a compõe.
Voltando, integrar sem reducionismo, implica compreender a complexidade dos fenômenos, sem acarretar uma homogeneização nem uma redução das categorias. Há transições, e elas devem ser levadas em conta.
Merleau-Ponty, sobre a questão da vida, diz que essa surge a partir de um oco que foi criado a partir da físico-química, surgindo como uma nova forma de relação. oco não é falta, mas estruturação de uma dimensão. Por exemplo, na teoria do coacervado, pode-se dizer que as substâncias químicas entraram em relações recíprocas que acabaram por compôr uma nova estrutura, que propagou-se posteriormente por si mesma. Seguindo a teoria descrita por Capra em "A teia da Vida", as substâncias químicas adquiriram, por Gestalt, a capacidade de autopoiese, de reprodução de si, e de sintropia (estruturação em níveis energéticos mais elevados, de certa maneira formalmente oposto à entropia física).
Dizer psicossomático é reduzir o psíquico ao aparato cerebral. A tentativa teórica é boa, mas sua perspectiva acerca dos fatos necessita de ser trabalhada pela própria teoria, em feedback.
Mundo como expressão
"Lei" e "norma" são formas de expressão equivalentes, em nossa linguagem convencional, ao que no universo são os movimentos das das estrelas e na vida a regulação imunológica do corpo. Não há, no interior de cada núcleo atômico, uma fórmula E=mc2 em seu interior e que regularia sua fissão em uma bomba atômica. Na verdade, mesmo a partícula subatômica não pode existir como uma caneca ou um livro, visível e palpável à nos, mas sua existência se faz através da intersecção de inúmeras formas de linguagem que, numa rede complexa, equivalem aos fenômenos visíveis que se esboçam nas telas das grandes máquinas de detecção. está na hora de se conceber existências através do retumbar da diferença, que cada vez mais força nossa perspectiva de mundo a sair de seu antropocentrismo, a devir por vários caminhos.
Pode-se, talvez, generalizar a concepção do corpo como expressão para outros fenômenos, e assim relativizar nossa compreensão realista do mundo.
Das Camadas transpassadas pelo tédio e sua posição topológica.

Se a estrutura neurótica é uma grande árvore rizomática que estratifica os devires em uma "consciência", que se diz digna de si e que acaba por sofrer ataques de diversos parasitas, lagartas e fungos, mas que mesmo assim conseguem, muitas vezes manter suas rotinas reguladas pelas estações.
Em volta de suas grandes raízes axiomáticas, sempre invadindo esse círculo limítrofe em um ponto ou outro, encontra-se o núcleo psicótico da personalidade, que é na realidade um grande gramado de raízes rizomáticas, brotando com seus devires por todos os lados, alimentando-se dos restos mortos e das estruturas arbóreas de nossas instituições neuróticas e paranoicas.
As raízes, tanto arbóreas quanto rizomáticas, penetram no grande solo da mãe perversa, macho-fêmea, aquela que pare seus filhos, os nutre e os corrói, aquela que está para além de qualquer limite, no solo ou na poeira do ar.
Abaixo dela, vê-se o magma libidinal que percorre as ligações rochosas e das destruições em massa.
Abaixo, o núcleo, férreo, permanece rotacionando em sua posição central, quente, comprimido, tenso como se suportasse o peso do mundo. move-se em intensa velocidade, mas não corre pradarias, apenas depara-se consigo mesmo, inerte, posicionando tediosamente as bússolas de todo mundo numa chata comunhão universal. Esse é o Tédio, campo de força mais que movimento, polarização em direção à si, não um dipolo, nem um monopolo, mas um "si-polo".
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Do objeto do Tédio e a Epistemologia cruzada de "prováveis imcompossíveis".
Teria a matemática e a física uma linguagem ontológica? Claro, a matemática em relações abstratas, busca uma sequências de estruturas que se derivam, não é imanente, pois há axiomas que regulam de fora seus movimentos... a física extrapola a matemática para uma leitura do mundo, fazendo o duplo caminho da interpretação de dados e da modificação destes, através de inúmeras formas de leitura diferentes.
Bom, longe disso, haverá contatos entre as teorias físicas com o mundo. Claro, A filosofia, que busca em Merleau-Ponty um contato originário com o mundo, trilhando uma ontologia indireta, sabe bem que só por meio da linguagem pode-se clarificar esse acesso à experiência do Ser. Já a física, utiliza-se de uma outra linguagem, a matemática. Porém, o mundo com o qual ela entra em contato é muito mais indireto, o mundo dos instrumentos gigantescos para análise do infinitamente grande e do infinitamente pequeno.
Infinitamente, pois o que se tem desse mundo é somente o rastro, a sombra, o fóssil. Ele não é a experiência mesma.
Ora, dizem os físicos, nunca nossa mão tocou em algo, os átomos de nossa mão repelem os dos objetos a serem tocados, nunca há contato. Entretanto, a experiência que temos é mesmo de uma promiscuidade com as coisas, mistura, completude sempre iminente e nunca efetivada, mas sempre ali, como uma sombra.
Como conciliar essas visões? A física avança pela distância que toma do objeto que percebe, a filosofia (de Merleau-Ponty), avança no contato íntimo com elas. Podemos não ver o fóton do vermelho, nem temos em vista um quale puro desse. Se a partícula é também energia, se o quale é uma impressão diferencial de um campo, se na física mesmo o campo parece solucionar a simetria da matéria, não há uma distinção entre o formal e o substancial, mas uma intimidade entre os dois.
Ao menos nesse sentido, tem-se um projeto comum.
Talvez, o melhor é abandonar a ideia de um conhecimento que progride por acumulação, e adotar a descontinuidade dos pontos de vista: Newton, Einstein, Quânticos, cada qual vê de diferentes perspectivas, mas nelas apontamos para o Algo.
Não o Ser duro e fechado, nem o Nada Vazio de si mesmo, mas o Algo.
A filosofia do Algo, a física do Algo, poderão talvez nos colocar frente a novas circunstâncias do mundo. Cabe construir esse visão, olhar por suas lentes e descrever o que aí se vê.
Certamente, Algo.
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