Vou tentar aqui esboçar um pouco do que foi minha história de pesquisa desde a faculdade. Muitos me questionam sobre o que pesquiso, e na verdade nunca soube dar uma resposta. Nunca soube nomear o que faço, pois acho que, como é uma pesquisa teórica, ela não tem um foco muito definido, ou eu que nunca o defini muito bem. Assim, resolvi tentar esboçar aqui minhas atividades.
Iniciei minha pesquisa no início de 2004. Na verdade, no final do meu primeiro semestre do curso de Psicologia, eu conversei com meu orientador, Prof. Dr. Reinaldo Furlan, que me passou algumas leituras, para que eu pudesse pensar em algum tema. Eu descobri que gostava de ler filosofia, mas não tinha nenhum tema em mente. Passei as férias lendo esse material. Ele me apresentou a Fenomenologia, principalmente a obra de Maurice Merleau-Ponty, um francês, amigo de Sartre, e que tinha uma discussão muito profunda com a Psicologia.
Durante suas leituras, fiquei instigado com a forma com a qual Merleau-Ponty definia a sexualidade. Isso pois já estava interessado na Psicanálise.
Adendo: Antes de falar da pesquisa, preciso explicar uma coisa. Geralmente uma teoria psicológica cria uma espécie de modelo ou descrição do que ela chama de mente, ou de comportamento, ou de percepção, etc. Esse modelo tem em si uma história, pois depende das filiações teóricas e do que cada teórico assume como verdadeiro em determinada época. Em linhas gerais, Freud fala da mente como um aparelho, motivado pelas pulsões, que visa descarregar o excesso de energia psíquica. Assim, para ele, a sexualidade tem relação com a forma na qual o sujeito descarrega a tensão psicológica, o que gera prazer. Essa concepção foi construída assim pois se inspira no determinismo científico (a ideia de que todo fenômeno é determinado por algo, passível de descrição por um método científico), seguindo o modelo da biologia (ele mesmo, antes da Psicanálise, tinha vários trabalhos de neurologia).
Será que esse modelo é bom? Quais as consequências de se definir a sexualidade assim?
Fim do Adendo
Bom, a noção de sexualidade de Merleau-Ponty era uma forma de buscar, na descrição do indivíduo como alguém que existe em um mundo (o ser-no-mundo do existencialismo) uma forma de compreender a sexualidade. A melhor metáfora que ele coloca é a de "atmosfera". Imagine que você está com tesão. Nesse momento, parece que tudo à sua volta remete e sexo, muitas vezes não é assim? A sexualidade é uma disposição do sujeito, em seu modo de existir, que atribui ao mundo um sentido sexual. Tudo, portanto, pode ganhar uma conotação sexual, contanto que seja percebida nessa configuração de existência. O capítulo que me ajudou nessa discussão é "O corpo como ser sexuado", do livro Fenomenologia da Percepção (1945, ano de publicação original).
No final dessa pesquisa (ela durou uns dois anos e meio mais ou menos), eu fui lendo mais coisas, e percebi que queria continuar, e estender essa análise para o que Merleau-Ponty dizia sobre a noção de insconsciente da Psicanálise. Comecei aí uma nova iniciação científica.
Adendo 2
Somente para entender um pouco de Merleau-Ponty, a obra dele é dividida por muitos comentadores em dois momentos. Outros dizem que o segundo momento é um aprofundamento do primeiro. Essa última parte da obra é mais difícil, pois ele morreu repentinamente de uma doença, deixando parte da obra inacabada. Entretanto, tinham muitas notas de trabalho que davam indicações muito importantes para a Psicologia.
Fim do adendo
Bom, nessa segunda parte, Merleau-Ponty descreve o inconsciente como parte de nossa forma de ser no mundo (chamei a pesquisa de "Inconsciente e Sexualidade na filosofia de Merleau-ponty"). Sempre quando percebemos algo, ou intuimos o sentido de algo, há por trás dele algo que não é imediatamente percebido, mas que dá sentido ao que percebemos ou compreendemos. Por exemplo, a profundidade. Não percebemos diretamente a profundidade, mas é ela que dá, de certa forma, a tridimensionalidade das coisas.
Como já disse a Gestalt, o todo é maior que a soma das partes. Isso é importante. Por exemplo, se eu narrar para vocês uma cena qualquer. A forma como cada um vai perceber depende não só do que socialmente se pensa sobre aquilo, mas de como você, por sua vida, dá sentido a isso. Nossa história de vida é o conjunto de sentidos que nos fazem ver o que vemos. Se gostamos de determinada cor, se um acontecimento nos entristece, o que está ali, naquela percepção, é a fora como a gente a organiza, e isso depende de nossa história de vida. O inconsciente seria, mais ou menos, a nossa forma particular de estruturar o sentido que damos às coisas, e não um depósito de memórias velhas.
Com essa pesquisa, eu terminei a graduação (2007). Fiquei um ano pensando no mestrado, e em 2008 iniciei meu mestrado. O tema era "Desejo e sexualidade na filosofia de Merleau-Ponty" (não tenho muita criatividade para títulos não hehehe). Quem quiser acessar, clique aqui. Aqui, o foco muda um pouco. Me centrei na ideida de como definimos o desejo. O que é o desejo? A grosso modo, é querer algo que nos falta. Entretanto, ter o que desejamos não diminui o desejo. Ele sempre parece precisar de outra coisa. É como se nada pudesse tampar esse buraco. Então, as teorias, como a lacaniana, por exemplo, falam do desejo como falta, sem que haja objeto que lhe tampe. Portanto, o desejo é em si insaciável, sempre em busca de um objeto que achamos que possa tampá-lo.
Será que o desejo é assim? Na mesma época de Merleau-Ponty, surgia uma outra crítica a noção de desejo como falta, na filosofia de Deleuze e Guattari. Eles falavam desejo é produção, é algo ativo, positivo.
Pensei em como Merleau-Ponty pensaria sobre o desejo na Psicanálise. Em seu livro "A Natureza" (na verdade, são notas de curso de alunos, em suas aulas entre 1956 a 1960), ele disse que o desejo é "busca do interior no exterior e do exterior no interior" (2006, Martins Fontes, p. 443). O que ele quis dizer com isso???
Para entender isso, precisamos entender que para Merleau-Ponty, o corpo não é um simples amontoado de células, ligadas por uma série de reações químicas coordenadas. Ele é isso e mais que isso. O corpo vivo é um sistema de articulação com o mundo. O corpo se completa no mundo, e nosso comportamento só tem sentido quando percebemos que ser corpo é estar tão intrinsecamente ligado ao mundo que nossa vida é a constante troca que temos com ele e com os outros.
Para Merleau-Ponty, é como se, desde o nascimento, nosso corpo dá sentido ao que vive nas trocas que tem com o mundo. Imagine o bebê mamando. Inicialmente, ele não tem noção da mãe como uma pessoa completa, que tem pensamentos, desejos, que faz coisas quando não está perto dele, etc. Klein (psicanalista) até chama as experiências boas com a mãe de "seio bom", e as más de "seio mal". Pois, como a amamentação é a principal forma do bebê interagir com o mundo, ele sente a mãe pelo ato de amamentar. a mãe é, para ele um mundo, e não uma pessoa. Ele introjeta esse mundo através do leite, e ejeta na mãe sua agressividade através dos choros, e dos espasmos. Isso é uma relação de troca, na qual ele incorpora parte do exterior, e externaliza parte do interior.
Muitas das nossas relações implicam nisso. Ao querer algo, ou nos relacionarmos com alguém, queremos alguma qualidade que há nessas pessoas ou objetos, queremos incorporar isso. Ou queremos expressar, externalizar algo que estamos sentidos. Trocamos com o mundo o tempo todo, e o desejo é essa troca mesma que caracteriza nossa existência. Claro que estou simplificando cada vez mais, com o risco de estar errado, mas é a forma que encontrei de explicar isso.
Em 2012, terminei o mestrado, e comecei a trabalhar no doutorado, que terminei em 2016. Percebi, durante o mestrado, que para compreender o que estava procurando (na verdade não sabia bem o que estava procurando, ainda não sei definir isso, talvez aí minhas dificuldades...), eu tinha que olhar justamente para a relação desse corpo com o mundo. No mestrado, eu cheguei a seguinte conclusão: "o contato desejante do sujeito co o mundo se aprofunda na medida que a espessura entre eles aumenta em uma profusão nova". Tão confuso quanto a definição anterior, não é?
A questão é a seguinte: não temos acesso ao mundo diretamente. Imagine você vendo um dado. você consegue ver o dado inteiro? Não, você só consegue ver, de uma só vez, até três lados simultaneamente. Não vemos dentro do dado, não vemos o dado por completo. Temos que ver o dado por perspectivas (viro o dado, corto o dado, etc.), para com nossa imaginação ver tudo. Entretanto, nunca vemos tudo. Quanto mais investigamos, mais coisas aparece. O mundo se mostra como algo cuja investigação nunca acaba. Para nos definir, nos entender, a gente não busca somente dentro de nós a resposta, mas nas nossas relações, já que nós somos seres-no-mundo, feitos de relações (com o mundo, com os outros, e consigo mesmo). Se o desejo se manifesta como relação com esse mundo, incorporando e ejetando, se nos completamos através de nossa relação com o mundo, como estaremos um dia completos se o mundo em si é infindável? Isso explicaria então porque o desejo nunca se sacia. é porque nunca estamos completos, já que o mundo nunca se fecha numa verdade pronta e acabada.
No doutorado, que se chama "Intercorporeidade e mundo em Merleau-Ponty", tentei especificar justamente isso. Vi que o filósofo define a nossa relação com o mundo por uma relação de interrogação, que possui dois lados: por um lado, o mundo, com seus sentidos incompletos, abertos, nos provoca, nos chama a olhar para ele, a tentar entendê-lo. Por outro lado, nós investigamos o mundo, e a partir das direções que ele nos dá buscamos construir um sentido dessa experiência.
Foram-se aí, portanto, entre 2004 e 2016, 12 anos de pesquisa. Eu geralmente contava 14, mas não sou bom de matemática, menos ainda de memória... Por fim, qual seria a utilidade dessa pesquisa? Na verdade, nenhuma. Em si, ela não tem valor nenhum.
Por outro lado, estudar essa pesquisa rendeu muitos frutos:
- Ela faz a gente questionar como as teorias que usamos implicam em determinadas formas e posições sobre como vemos o mundo e interpretamos certos fenômenos;
- Ela me faz reconstruir minha visão da psicanálise em uma linha existencial, o que eu aprecio bastante;
- Ela dá bases para uma compreensão mais profunda da Psicologia como um todo;
Assim, por fim, minha pesquisa me formou enquanto docente e enquanto pessoa.
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