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segunda-feira, 27 de junho de 2016

Papers à granel

    Ciência em nosso país perdeu a cumplicidade com a criatividade. A produtividade e a confiabilidade caiu em mãos da simulação, ou seja, da tentativa de se repetir um modelo de verdade científica. Não acha que estamos ficando chatos, lisos (nós, psicólogos), perde-se espaço para a sensibilidade que sempre foi a característica-mor da Psicologia.

        Estou lendo Stendhal, "O Vermelho e o Negro". O tradutor disse que Stendhal é um antecipador das perspectivas psicológicas do final do século XIX, e mesmo Nietzsche disse que ele era avançado para sua época. Realmente, é mais que um romance, é uma visão microscópica do homem, inserido nas redes macroscópicas sociais. Deleuze estava correto em ver na literatura a nova clínica. Que tenhamos nas grandes obras as linhas de forças que afetem nossa subjetividade!

        Agora me fala, quem então é mais científico? O grande analista das minúcias psicológicas, a obra literária, ou o árido texto científico, com suas metodologias cada vez mais sem sentido?
       Certo estava Lacan ao ver o quanto a palavra nos carrega por caminhos que ela mesma costura. Mais certo ainda Merleau-Ponty, ao ver na palavra a vida e o ato do corpo, ato de sentido. Falta a escrita científica psicológica recuperar a vida do texto. Os artigos são, hoje, natimortos. Não há tempo de gestação, a violência das horas adianta o tempo de amadurecimento... Mais que gestações, temos abortos constantes de parágrafos mal-formados, contaminados desde muito com a rapidez capitalista. Mas o que importa é o número de fetos, e não sua vida - todos eles serão depositados em longas prateleiras, conservados em formol, esperando que alguém necessite de novas inúteis referências para acoplar em seu feto moribundo. O Lattes é o cordão umbilical envelhecido, no qual se penduram os putrefatos produtos do coito (incestuoso) entre o burguês e o intelectual.
Baixou-me agora um Exu-Au-gosto dos Anjos!

domingo, 5 de abril de 2015

O fim da Valsa, de Viena e, possivelmente, do antigo freudismo

A moda agora é interromper as valsas de casamento por um novo ritual de acasalamento: primeiro, as mulheres dançam o funk das poderosas, indicando que o domínio fálico acabou. Posteriormente, os homem mostram que a única coisa que atraiu suas mulheres é o seu "lepo-lepo"... depois são esclarecidos os novos termos das relações contemporâneas, nos quais se dançam junto todas as outras formas de sexualidade, incluindo a liberação do kuduro, a relatividade dos "macho-man" fora do armário de clausura heteronormativo, e no fim, tudo o que sobre é o poder dos camaros amarelos e dos rituais capitalísticos-sexuais de dominação recíproca dos sexos sob a égide do capital.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Liberdade fantasmática, Igualdade hiperbólica e Fraternidade do Mesmo

Sob a égide do signo, em seu movimento infindo de deshierarquização e equalização absoluta, a diferença morre por semelhança ou contingência. Ficam de fora as disrupturas, as dissonâncias, ou seja, a emergência da Diferença enquanto tal.
Deleuze: positividade da diferença, Merleau-Ponty: identidade na diferença
Por mais que as duas abordagens se contraponham, pois uma prega que é na diferença que os elementos se imbricam e que o sujeito se coloca no mundo, enquanto a outra parte da Multiplicidade da Diferença para compreender suas reverberações frente aos jogos de forças, ambas mostram um movimento que, mesmo fundamental, permanece sombrio, permanece no gueto. Sim, ganhar o mundo, sair do armário, tornar-se acessível, tudo isso o descaracterizaria do que ele realmente é?
Creio pensar assim os que vêem a aplicação das normativas da Revolução Francesa hoje. Pois aquilo que chamamos de liberdade é a ínfima capacidade de ponderar frente a um jogo de forças que não é somente exterior ao sujeito, mas é seu criador. O que chamamos de igualdade tornou-se um esforço de equivaler tudo, abolir as diferenças ou aceitá-las, mas transportando-as para um regime comum de signos, de modo que todos possamos entendê-la, e assim abolir e traduzir são o mesmo. E o que sentimos como sendo fraternidade é apenas a ocultação dos horizontes do outro e a tomada da intersubjetividade sob o narcisismo de uma coesão de mesmos. Ou seja, a Alteridade se esvazia de sentido e se agrega como mais um signo do moderno.
Ainda há guetos, ou seja, recantos onde a diferença se manifesta plena, mas o trancafiamento no gueto é a única alternativa frente ao medo de desagregamento que acompanha o embate com a diferença. Mas, aos poucos, essa massa que é o social acaba por incorporar, por tradução sígnica ao capitalístico, um pouco dessa diferença, deixando o seu fundamental para trás.
Por exemplo, o movimento homossexual é agregado à sociedade no que tem de mais próximo, nas relações "estáveis", na busca por direito político, mas aquilo que fica de fora, o que transparece cada vez que o beijo gay, mero contorno de um problema inominado, vira polêmica, é o contato corpo a corpo entre dois homens, entre dois pênis, o roçar de pêlos, o ânus, o que foi soterrado por toda a terminologia da sexologia atual.
Outro exemplo é a necessidade social de agregar a cultura nerd, já que depende amplamente destes e do meio digital para continuar a produção de capital cultural e econômico. O "nerd", que é um subproduto dos sistemas sociais intra-escolares, torna-se agregado pelas potencialidades de consumo que introduz: há toda uma subcultura que se torna passível de consumo em massa, o que se percebe com a grande ocorrência de blocbusters tendo como tema heróis pouco conhecidos das massas. O que fica oculto é que essa inteligência-fetiche, resíduo de uma exclusão social, passa a ser objeto de uma sublimação do bullying, tal como ocorre com outras diferenças que hoje são aceitas em prol do "politicamente incorreto".
Em São Paulo, a força pela igualdade de direitos conseguiu abolir o "Dia do orgulho hétero", fachada ultra-direitista que se molda atualmente com a justificativa de ser vítima da supervalorização do Outro, do diferente. Uma boa vitória, mas, como acompanhei pelo jornal "Folha de São Paulo", houve um resto não explicado. Carlos Apolinário, defensor da criação do "Orgulho ao Mesmo", questiona porque é permitida a Parada do Orgulho Gay mas não a Marcha evangélica ou dos sindicalistas.  A imposição despótica da diferença é tão prejudicial quanto a imposição imperativa do Mesmo, pois estas ao menos despertam a reação da Diferença. Assim, elas não oferecem tanto risco quanto a equivalência sígnica em nome dos direitos de liberdade, igualdade e fraternidade, que mata a diferença lentamente, como um sapo cozido em fogo brando.

sábado, 11 de agosto de 2012

Internet e a ancoragem de sentido

A internet derrete os campos de ancoragem de sentidos e coloca todos os signos em equivalência. Assim, tudo entra na lógica do like, e pode se espalhar exponencialmente pela rede. Uma crítica, uma reflexão, uma frase, deixam de valer por  suas direções iniciais de sentido, tal como se configurava na experiência do criador, e passam para a lógica das redes sociais. Como dito por Baudrillard (À sombra das maiorias silenciosas), a massa se magnetiza mas logo volta a seu estado original. Em outras mídias, como os livros, estes ainda são bem codificados em seus respectivos campos de saber ou acadêmicos. Na televisão, há ainda o domínio das grandes empresas músicas e a unilateralidade da transmissão. A multiplicidade e a ausência de centros informacionais na internet permite visualizar melhor o efeito de massa.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Recado aos burgueses do século XX

Picasso, Blue Nude

No homem, até o necessário é gratuito. Coitado daqueles que veem no centro do homem uma falta fundante, um buraco de profundidade inestimável cujo capital, sexo e arte não conseguem suprir. Não, não há homem-queijo suíço.

É justamente a falta de uma falta que marca nossa subjetividade. Vivemos o risco do tédio existencial. O neurótico saiu de cena com o desenvolvimento dos mass media e da cultura individualista e superficial, o psicótico, antes excluído da sociedade, agora passa por uma tentativa de axiomatização pelo capital. Sobra o perverso, novo modelo de vivência.

Tudo é possível, há explicação para tudo, desde que se possa obter um mais-gozar. Entretanto, na cotação de prazer, na expiação do desejo, na equivalência sígnica de tudo, pouco sobre para o homem, que recai em um tédio existencial. O excesso que nos marca, de informação, de conhecimento, de trabalho, torna o vital cada vez mais submetido ao mais-gozar, que desterritorializa e axiomatiza em uma onda de subjetivações temporárias e televisionadas.

Não há espaço para falta. Não há tempo para falta. Não há grana para análise.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Liberdade para se submeter ao que quiser!

     Vou ser mais didático nesse post. Mais que isso, serei um tanto burro e distorcido, pois as coisas são bem mais complicadas do que exporei aqui.

  Fico abismado, pessoalmente abismado, pela capacidade das pessoas se submeterem irracionalmente a ideais alheios, e se sentirem bem, como se fossem poderosos e vencedores. Compramos brigas por ideais, por crenças, e cada vez mais as superestruturas de poder das empresas capitalistas necessitam de menos esforços para conseguir convencer-nos de que o que ela querem é o que queremos.
     Claro, essa indignação não é tão irracional assim, não me coloco de fora dessas influências. Isso faz parte de todo um mal-estar social que há muito penetra em cada sujeito. Mas acho que precisamos de alguns esclarecimentos, a fim de compreender o que se chama "processo de subjetivação", ou seja, como nos tornamos "sujeitos", pessoas que pensam e agem como se fosse por si mesma, por suas próprias decisões. Me desculpem os estudiosos filósofos se os termos estão incorretos, mas esse texto não se dirige a vocês.
     Deleuze, filósofo francês, lendo Nietzsche, filósofo alemão, coloca que a vida é composta por forças que conflitam entre si, na afirmação de si mesmo. Seja na sobrevivência do mais forte, seja, no mundo humano, na busca de cada vez mais poder. Ora, em nossa sociedade, é o que vemos: pessoas por cima e pessoas que querem ficar por cima. entretanto, cada um faz isso de forma diferente:

 - Ativos: esses agem, atuam no mundo por suas próprias ações, sem que essas "se preocupem" com os "outros", nem para ajudá-los nem para prejudicá-los. Não confundam isso com o "egoísta": não agir conforme os outros não significa fazer coisas que causem mal a esses. quem prejudica o outro, porque quer ou porque está pensando em si mesmo, faz isso porque está a todo momento pensando no outro, no que ele faz de certo ou de errado. Esse é o egoísta, o que mais se preocupa com os outros. O ativo age e, se sua força vai de contra a alguém, não é por não gostar dele nem por querer prejudicá-lo. Pensem nas crianças que estão em um jogo: elas estão preocupadas e ganhar do outro, e cada uma aceita a disputa, estão preocupados com a disputa, e se divertem pela disputa. quando a disputa acaba, não sobram grandes ressentimentos.

 - Reativos: esses são os que se afirmam pela negação. são as pessoas que agem mostrando que são bons em oposição a tal pessoa ou instituição. Sempre comparando, sempre se dirigindo aos outros,eles precisam ver a derrota do outro para poder se sentirem campeões.
Claro que não existem dois tipos de pessoas. De certa forma, cada pessoa é um pouco ativo e um pouco reativo ao longo da vida. Não vou ficar aqui falando dos ativos, mas sim daquela parcela reativa que temos em nós.

     Para que se sinta melhor que o outro, o reativo tem que buscar o que vê de errado nele, e assim criar um ideal de certo, de bom. Assim nasce a moral e os valores reativos. Isso é errado, isso é ruim... o bom mesmo é ser X!
     As empresas, sem o saberem conscientemente, sabem disso. Vejam a Apple: Jobs dizia que em vez de se buscar a necessidade das pessoas, deve-se criar produtos que se tornem necessários. Criar desejos. As pessoas, assumindo o desejo que nunca teve, passa assim a pensar, fazer e valorar segundo modelos que nunca raciocinou, nunca refletiu.
     As pessoas, muitas vezes, assumem ideais, crenças, partidos, e papéis sociais, e os defendem com unhas e dentes, mas nunca refletiram o que vêem de "seu" nesses papéis. Por exemplo, pessoas que fazem parte de grupos, empregos, partidos, e sentem emocionadas o quanto suas crenças são melhores e seu valores e seus produtos etc... Acabam por sentirem orgulho de viver em uma nação gloriosa, pertencerem a uma escola de renome...
     Assim, vangloriando-se pelo status da instituição. Vem então algumas perguntas:

 - Qual é o benefício que essas pessoas possuem com isso?

     Vejam, se é o salário, se são bens materiais, se é o status que adquire por um diploma melhor... ao menos, a pessoa está defendendo a si mesma, a sua potência individual. Mas será que defender o quanto a instituição "é a maior/melhor do mundo" é somente uma forma de obter mais benefícios para si? que benefícios seriam esses? O status, o espírito de vitória que a coletividade possui ao defender brigas que não são suas... geralmente, essas instituições estão preocupadas com sua própria sobrevivência, e não hesita de trocar pessoas ou expulsar indivíduos para isso. Mas, enquanto esses ainda estão lá dentro, tais instituições buscam que este defenda seu ideal, o adote enquanto seu? Será que as pessoas conscientemente escolhem isso? e será que essa escolha lhe é benéfica? Será que sua vida depende de uma instituição que nem sempre está preocupada com seus membros?

     Assim, podemos perceber que as pessoas acabam por defender o que não é ou nunca foi seu, mas que ganham, em benefício, a fantasia de que são melhores por isso, melhores por estarem com melhores. E agem, assim, reativamente, comprando brigas que na realidade só aumentar a força da instituição, e não a sua própria.

     Em grandes instituições, poucos "lucram" com o poder da instituição, o resto é fantasia criada para contentar e convencer os que as defendem.

Se questione:

 - O que seu partido fez, direta ou indiretamente, para melhorar seu estilo de vida?
 - O que sua empresa fez para que você realize seus desejos, mesmo que estes não incluam a própria empresa (como por exemplo, fazer uma faculdade que melhoraria sua vida e o faria conseguir um emprego melhor FORA da instituição???)
 - O que seu time, religião, ideal científico, etc etc contribui para que você se realize?

ISSO NÃO É EGOÍSMO, PENSAR EM SI NÃO É DEIXAR DE PENSAR NOS OUTROS. AS INSTITUIÇÃO NÃO SÃO "OUTROS", SÃO MAQUINAS DE LUCRO. OUTROS SÃO AS PESSOAS AO SEU REDOR.

Obrigado pela atenção

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A questão do ídolo



   Steve Jobs faleceu. Assunto abundantemente comentado, explorado e vendido. Até aí, tudo em sua normalidade. Entretanto, quem era Jobs? Criador de uma empresa de tecnologia, criou produtos que direcionaram o mercado e ainda mais, que criaram tendências, geraram novas necessidades, criaram seu mercado?
     A máxima de Jobs era a de que a empresa tinha que guiar o rebanho de consumidores. Entretanto, o que ele fez foi somente tornar público algo que já está na essência do capitalismo. Frente à concorrência, muitos produtos precisam reinventar necessidades.
     O ramos de produtos químicos para o cotidiano deixa transparecer cada vez mais essa "necessitação" do supérfluo. Desde Pasteur, a teoria microbiológica da doença, embora não mais generalizada, é fundamento para uma reação higienista cultural, baseando-se na construção cultural do asco (social, mas também psíquica). Assim, cada vez mais (principalmente agora que, pelo menos no Brasil, vê-se a propagação do "politicamente correto" e "ambientalmente correto" enquanto qualidades rentáveis através do consumo) se vê surgirem produtos com "algo a mais que os outros", o que o torna sempre mais eficiente. Isso chega ao paradoxo de a mesma empresa e até a mesma marca lançarem quase que simultaneamente produtos que negam outro, como uma concorrência interna.
     Bem, assim, mesmo que seja mais que "aumentar funções", o que a Apple faz é criar. Criar o supérfluo, agregar mais ao vazio, recriar nossa relação com a tecnologia. Não que não haja aí uma positividade, uma relação criativa entre as necessidades da população e o produto criado. Mas ainda sim o que se vê é a abertura de novos nichos de vazio, uma ressignificação, uma supersignização, uma sobrevalorização de algo que é, em essência, dentro das tendências naturais da tecnologia, seu devir próximo.
     Assim, há mais na Apple, há nela Jobs, e sua figura pessoal como emblema de algo cultural. enquanto as outras empresas criam produtos e deixam que suas qualidades tornem-se, lentamente, necessárias (como a Microsoft, cujo mentor não possui o mesmo impacto pessoal que seu rival, mas que dominou por muito tempo a mentalidade computacional - mesmo que com produtos não tão ágeis e consistentes).
     Os lançamentos da Microsoft se vinculam mais a empresa que ao mentor. Foram produtos que se tornaram necessários para muitos através de uma lenta dominação. já na Apple, cada novidade é previamente enunciada, tornada mistério, tratada como sagrada, e ainda mais, vinculada a um mentor, alguém que veio iluminar a massa cega com novidades.
     Ora, a isso podemos denominar "ídolo", ou seja, a materialização de uma série de processos sociais de dominação na figura de um mentor, como emblema de uma maquinaria que em seu íntimo extravasa seu gênio. Claro que o emblema não é aleatório, mas tem relação direta com o que simboliza. Jobs, segundo uma antiga reportagem (creio que da folha), associa seu nome a inúmeras patentes, sem ter participado diretamente de todas elas.
     Mesmo sendo um intelecto ou uma personalidade única, o ídolo não é "individual", mas uma produção, o umbigo de uma maquinaria cultural de afirmação e subjetivação. Sem Jobs, talvez ainda teríamos ipads, ipods, etc, mas esses teriam um processo de crescimento e morte muito mais lentos, seguiriam outros caminhos.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Depressão e Capitalismo

     Interessante compreender o aumento de casos de depressão atualmente. Segundo Freud em "Luto e melancolia", a diferença entre os dois fenômenos está no empobrecimento do mundo para o primeiro, pois o que se perdeu é um objeto externo, e o empobrecimento do ego para o segundo, pois o objeto perdido era algo pertencente, por identificação, à subjetividade desse.
     O Capitalismo é o reino da falta. Sua dinâmica administra uma subjetividade cujo o desejo é padronizado e monetarizado. Há um esvaziamento dos objetos paternos e principalmente de seus substitutos, de modo que o sujeito, antes de se identificar com um objeto positivo, se identifica com um objeto negativo, com uma forma desejante binária, aberta a uma passagem objetal, à passagem de uma cadeia de signos desterritorializante.
     Assim, caso o sujeito tenha a ousadia (que é incentivada) de se identificar com esse "ralo objetal", fica suscetível a ver-se pelo negativo, pelo jamais completo, e assim reconhece-se como vazio de si, identificado a um turbilhão de objetos-signos que escorrem constantemente e cuja parca consistência associada a uma necessidade ambivalente de completude, crie um sujeito deprimido.
     Assim, temos uma estrutura social produtora de depressões e um sujeito que tem parca escolha, escolha essa que se faz entre as poucas alternativas  disponíveis.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Onde ciência e esoterismos são iguais...

     Penso que já está na hora dos pensadores do "oculto", do "esotérico" deixarem essa busca infrutífera, ou melhor, o caminho desgastado pelo qual seguem. Já as ciências "aprovadas socialmente", pelo menos algumas delas, já iniciaram mudanças paradigmáticas, mas o modelo de pensamento esotérico ainda se atém a formas de pensamento cujas consequências foram há muito estudadas.

     Em "O Símbolo Perdido", de Dan Brown, o autor usa como artifício literário (a revelação de um segredo em pequenas doses instigadoras, tendo como atributo principal sua relação com o que se chama de "real") temas da ciência noética como sendo a grande revolução paradigmática da atualidade.

     É incrível verificar que a relação corpo-mente continue sendo tema de estudos e recebendo cada vez maior atenção. Na realidade, esse tema é antigo, e as teorias que visam sua compreensão também.

    Desde a Idade Moderna, vemos duas posições que ainda impregnam as mentes atuais, que são o materialismo e o idealismo radicais. Com o passar do tempo, tais posições passaram a ser defendidas somente por poucos autores ou presente implicitamente em determinadas experiências científicas.

    Aquilo que hoje é chamado de esoterismo é a assunção de teorias antigas ou orientais por um público ocidental, que utilizam como chave interpretativa de suas exposições alegóricas e metafóricas o idealismo radical.

     Não que tais teorias em si não comportem algum idealismo, mas não há uma análise profunda da arqueologia das noções de "ideia" e de "pensamento" para esses textos. Assim, a ideia de que a mente manipula a matéria, de que o pensamento é um ente físico que apresenta massa, ou de que a matéria é pensamento (Amit Goswani).

     Ora, como se buscar a natureza da relação entre matéria e pensamento, entre corpo e alma, se não se percorre um processo de arqueologia dessa relação, a busca de uma base para aí poder compreender os resultados teóricos.

     Por exemplo, a premonição. Freud já considerava em sua obra que o sonho ou a sensação premonitória tem relação com com a estrutura psíquica do sujeito, tal como os sintomas, os atos-falhos, etc.

     Entretanto, aprofundando um pouco mais na arqueologia de nosso contato com o mundo, podemos verificar que esse Grande Outro, diante ou pelo qual se estrutura o discurso, é não somente a alteridade do inconsciente, mas sim a impossibilidade da reversibilidade total entre tocante e tocado, vidente e visível, ou seja, o Grande Outro é a alteridade da identidade entre visível e invisível.

     Há um invisível em nossa relação com as coisas, há um quiasma e uma interconexão que se dá pelo entre, pela distância, pelo contato à distância, pela transmissão expressiva da carne.

    Merleau-Ponty nos permite especulações mais profunda sobre a relação entre corpo e alma, de modo que o pensamento da dobra nos fornece a possibilidade de fugir dessas posições extremadas tanto do materialismo radical quanto do idealismo radical. Não entrarei em detalhes, pois haveria de percorrer em grande parte a teoria merleau-pontyana, mas é importante apontar que aquilo que se chama de alma é o outro lado, o avesso, o invisível da visibilidade do corpo.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Escola freakshow

     A instituição escolar como exacerbação do Mesmo gera uma aberração maior que os aberrantes que a compõe.

    O bullying enquanto patologia é contingente de uma sociedade que emprega o inglês como substantivo nominal básico de qualquer forma de pseudoprofundidade científica. Ou seja, do processo de homogeneização lateral por via axiomática, no valor virtual de troca do capital.

     Assim, toda diversidade inextinguível sai ao menos marcada subjetivamente, diferença marcada como desvio, desvio codificado e aceito, ou rejeitado e depositado em outras cadeias significantes cujo mastro-falo possibilite novas relações e ligações axiomáticas.

     Assim, o deficiente, o gordinho, o feio, o religioso, o gay, cada qual acaba por, na afirmação de sua diferença, fazê-lo pelo mesmo, criar discurso que o signifique e o possibilite entrar no jogo capitalístico.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Shopping Santa Úrsula: templo suicida

Uai, porque justo um shopping tornou-se point de suicidas? Com certeza não é só pela facilidade de pular do terceiro andar, pois há vários lugares também possíveis... a vida, dolarizada, tem o shopping como seu templo do vazio, do oco necessário a dinâmica do ter. Porque a necessidade dessa morte visível, desse showmício? Tudo é reality show, tudo está no youtube, a informação está sob o paradigma da universalização rasa, todos. Podem saber de tudo, e por fim ninguém sabe nada. O panóptico tornou-se omniótico, sem centro, sem sujeito, tudo é visível e vidente, o shopping circular, ambientalizado, asséptico, retira-nos da contingência e das diferenças que nos permeiam e nos insere num mundo onde tudo é transparente, vitrine, tudo lhe é acessível desde que se axiomatize pelo capital.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Corpo Astral

     Já reparou o quanto que tais filosofias "holísticas", ou essas ciências da energia corporal ainda baseiam seus conceitos sobre a mesma base em que se fundou a ciência moderna? A hegemonia do pensamento continua presente, mesmo quando se une nesses pensamentos a questão de um inconsciente, que torna-se um segundo "Eu penso".

     Ainda encontramo-nos arraigados ao cogito cartesiano, e, quando se quer contrapor a ciência enquanto uma série de regras causais pela força do pensamento, é ainda a ele a que nos remetemos. Falta às filosofias alternativas um questionamento mais rigoroso e mais profundo para compreender seus conceitos...

     Pensar que há uma aura mental que envolve nosso corpo, é traduzir em termos cientificistas o que Merleau-Ponty falou há muito: há um poder de reflexão em nosso corpo, ele possui acesso à uma rede de sentidos que estão aquém do pensamento consciente...

    Enquanto não revermos a ideia de consciência e a fórmula dogmática de pensamento, tudo o que é feito ainda será cartesianismo.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

O risco democrático da Wikipédia

     A formulação de um registro do conhecimento universal é antiga - Diderot e D'Alembert foram os grandes propagadores desse ideal iluminista. Como o fenômeno da internet, que possibilitou uma comunicação mundial (e não só isso), surge o ideal democrático do conhecimento:

- qualquer um pode contrubuir;
- toda contribuição será julgada pelos pares;
- o conhecimento se tornaria mais "exato" e "verdadeiro", quanto maior fosse a participação das pessoas no debate dos vários temas.

     Igualdade, Liberdade e Fraternidade = Wikipedia

Igualdade em que nível?

     Somos realmente todos iguais ao expressarmos nossas opiniões?

- há uma desigualdade na distribuição e na valorização dos diversos capitais que circulam e determinam a "veracidade" dos saberes. Por outro lado, se somos todos iguais, isso é em virtude de uma maquinaria capitalística que inibe a emergência de diferenças que não sejam capitalizáveis;

Liberdade na batalha?

- que liberdade se têm se subjulgamos as forças que nos atravessam, que dobram-se e deixam-se significar pelo capital sígnico? Há opiniões, e agem-se sobre elas, as aperfeiçoam e as mantém... somente doxa-dolar

Fraternidade de quem?

- Somos irmãos - temos os mesmos papais e mamães, mesmos complexos, mesmas crises, mesmos sentimentos mesmos mesmos... ou somos produzidos assim? Li na Wikipedia meu irmão pronunciar-se sobre a imoralidade (usa esse termo) do procedimento de clonagem... o homem brinca de Deus, blá blá blá... com certeza esse cara não é meu irmão, e se fosse eu o renegaria. E isso sai publicado e é copiado em trabalhos de alunos do ensino médio como se fosse um conhecimento universal...

    Quando deixaremos de produzir o universal, para impactarmos contra as paredes, encaixarmo-nos em nossas bordas tortas e, desencaixando-nos, produzir algo de importante.

     Se a ovelha Dolly era imoral, não era por ser clone, mas sim por ser ovelha, tal como o autorzinho do tópico da Wiki, parte de um rebanho, guiado por um pastor sabe-se lá para onde... (tal como a ovelha, dever-a parar numa churrascaria, mas isso é outra história).

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Balanço Edípico

     À aqueles que acham que o incesto de Édipo foi com a mãe, enganam-se: na verdade foi com pai.

     Sexo é algo muito mais comum (não que o assassinato também não seja, mas se este fosse maior que aquele, não haveria mais vida humana na Terra). Assim, estatisticamente falando, o assassinato é mais "raro", e emocionalmente mais intenso. Nota-se, então, que a relação com o pai foi mais que um mero sexo - note que a libido transpassa a relação entre amor e ódio.

     Portanto, é totalmente possível a relação edípica transversa, inversa, oculta, aquela do não dito, das frestas. A isso, deve-se conciliar a ideia da atividade da passividade, do rompante vidente que um corpo, mero objeto do outro vidente, realiza nesse primeiro, sujeitando-o a uma mera posição de objeto, reduzindo-o a um pequeno receptor de prazer, imóvel, preso em seu próprio gozo.

     Ou seja, sei lá, tantas entrelinhas, contradições... mas é isso.

sexta-feira, 7 de outubro de 2005

Carmina Burana (apresentada pelo coral Minaz)

     Uma ópera (ou uma cantata) geralmente é uma torrente de sentimentos. Tanto com a música quanto na sua ausência. É tudo questão de figura-fundo: quando as luzes se apagam, só sobra-nos um foco, uma vida, que não é realmente nossa, mas que se incorpora a nós por extrema necessidade.

     Ela, como normalmente ocorre com todas as obras artísticas humanas, busca por um fim. Insana procura, nós nunca lidamos nem conseguiremos lidar com pontos finais. Eles possuem vida própria, quando eles vêm, pronto!

     O interessante desta ópera é que ela termina no começo... ou começa pelo fim. Ou seja, sem pontos finais, a pura realidade: o que se repete é o real (Lacan). É a Roda da Fortuna, que mostra nossa desgraça matematicamente: se o seno de sua vida é 1, naturalmente ele tenderá para -1. Vê, o número é igual, porém são qualitativamente diferentes. São valores opostos que se conciliam.

   Ademais, dou parabéns a todos os envolvidos nesta magnífica obra.

"FORTUNA IMPERATRIX MUNDI"!!!

terça-feira, 4 de outubro de 2005

Relatividade

A vida é simples quando se deixa ser simples. Este "se" é a própria vida ou nós?

Não digo mais que o pensar traz sofrimento. Ele traz felicidade sim... mas às vezes... a felicidade vem, e você nem quer pensar mais. Uma coisa simples, e meia hora pode mudar um dia. Porém, 10 minutos podem ser bem mais avassaladores. E tamanha força pode desfazer-se com uma simples palavra. Simples assim.

segunda-feira, 12 de setembro de 2005

Milagre

Como sina, o homem busca, impreterívelmente, o sentido do mundo. Essa é a jornada da vida, é o desenrolar mesmo do tempo. Compreender o mundo é findá-lo em suas possibilidades e, assim, encerrar a existência.
Porém, nosso Altíssimo Deus, em sua imensa bondade e grandiloquência, fez o mundo infindável. Deu-nos, assim, a mais tenra ignorância e, com ela, a sofrível eternidade.