Penso que já está na hora dos pensadores do "oculto", do "esotérico" deixarem essa busca infrutífera, ou melhor, o caminho desgastado pelo qual seguem. Já as ciências "aprovadas socialmente", pelo menos algumas delas, já iniciaram mudanças paradigmáticas, mas o modelo de pensamento esotérico ainda se atém a formas de pensamento cujas consequências foram há muito estudadas.
Em "O Símbolo Perdido", de Dan Brown, o autor usa como artifício literário (a revelação de um segredo em pequenas doses instigadoras, tendo como atributo principal sua relação com o que se chama de "real") temas da ciência noética como sendo a grande revolução paradigmática da atualidade.
É incrível verificar que a relação corpo-mente continue sendo tema de estudos e recebendo cada vez maior atenção. Na realidade, esse tema é antigo, e as teorias que visam sua compreensão também.
Desde a Idade Moderna, vemos duas posições que ainda impregnam as mentes atuais, que são o materialismo e o idealismo radicais. Com o passar do tempo, tais posições passaram a ser defendidas somente por poucos autores ou presente implicitamente em determinadas experiências científicas.
Aquilo que hoje é chamado de esoterismo é a assunção de teorias antigas ou orientais por um público ocidental, que utilizam como chave interpretativa de suas exposições alegóricas e metafóricas o idealismo radical.
Não que tais teorias em si não comportem algum idealismo, mas não há uma análise profunda da arqueologia das noções de "ideia" e de "pensamento" para esses textos. Assim, a ideia de que a mente manipula a matéria, de que o pensamento é um ente físico que apresenta massa, ou de que a matéria é pensamento (Amit Goswani).
Ora, como se buscar a natureza da relação entre matéria e pensamento, entre corpo e alma, se não se percorre um processo de arqueologia dessa relação, a busca de uma base para aí poder compreender os resultados teóricos.
Por exemplo, a premonição. Freud já considerava em sua obra que o sonho ou a sensação premonitória tem relação com com a estrutura psíquica do sujeito, tal como os sintomas, os atos-falhos, etc.
Entretanto, aprofundando um pouco mais na arqueologia de nosso contato com o mundo, podemos verificar que esse Grande Outro, diante ou pelo qual se estrutura o discurso, é não somente a alteridade do inconsciente, mas sim a impossibilidade da reversibilidade total entre tocante e tocado, vidente e visível, ou seja, o Grande Outro é a alteridade da identidade entre visível e invisível.
Há um invisível em nossa relação com as coisas, há um quiasma e uma interconexão que se dá pelo entre, pela distância, pelo contato à distância, pela transmissão expressiva da carne.
Merleau-Ponty nos permite especulações mais profunda sobre a relação entre corpo e alma, de modo que o pensamento da dobra nos fornece a possibilidade de fugir dessas posições extremadas tanto do materialismo radical quanto do idealismo radical. Não entrarei em detalhes, pois haveria de percorrer em grande parte a teoria merleau-pontyana, mas é importante apontar que aquilo que se chama de alma é o outro lado, o avesso, o invisível da visibilidade do corpo.
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