quinta-feira, 14 de junho de 2018

Epitáfio a um pinguim 2


Jaz aqui, retinto, alguém que esperou, suspirou e morreu. Falecido porém insatisfeito, pronto a querer renascer das suas cinzas em Shiva, que lhe permita, oh! Deus, que lhe permita!

Saibas que, no âmago dessa união recíproca entre minha vida e a tua, só nos resta tornarmo-nos um. Dissolver a relação nessa unidade inerte, não-tensa...

O contato com o absurdo fez-me perder a graça de qualquer outra coisa que não seja superação... porém, diante da intrigante verdade de que não sou puro transcender, que, como todos, estou afogado no Mesmo, não tenho o que respirar...

História sem corda



Sinto que o tempo passa e eu persisto. Manter-se não é algo de se orgulhar. É sobreviver, mesmo se não há a opção para seguir. Caminhar com o Tempo, isso é digno. Assumir que ao virar uma esquina, após tomar um refrigerante e comer dois salgados, acompanhados daquela paz que oculta o cansaço do cotidiano, um metal ovalado atravessa seu caminho. Aí ele segue, e é você quem fica. Vira passado. Ser passado é inexistência presente. Ter passado é nostalgia.
Quando era criança, me orgulhava de resistir ao calor do asfalto. A grossa palma dos pés mantinham-se sobre o solo quente de Ribeirão Preto em Janeiro. Às vezes era preciso correr, mas quando ficava ali, parado, percebia que aquilo subia-me pelos pés mas não me incomodava – eu era um herói, sobre-humano.
Tenho passado, mas agora persisto. Algo rompe a linha histórica, vê-se um campo nebuloso onde nada que possui grande sanidade penetra. Depois disso, eu. Ali, a contar.
Um, dois, três. Lembro-me de meu reino. Centenas de miniaturas formavam famílias, possuíam casa e função. Todos sob um governo forte, centralizado pelo meu alter-ego. Acho que na verdade eu não era o governo. Sempre tive vocação para ser Deus. Animava o plástico, e dizia: “Do polímero vieste, ao polímero voltarás”. E nesse meio termo viviam. Os velhos vidros de esmalte de minha mãe: feiticeiras e magos representavam aquela pressa de resolver-se tudo rápido – o mundo salvo a cada tarde. Assim me sacrifiquei, e na divina posição persisto.
Só há dois problemas na perfeição. Sua solidão e sua inexistência. Há também sua finitude, pois o clímax é o início do fim. Fim, que fim? Só persisto.
Se houvesse um relógio de pêndulo em casa, teria jogado tal criatura aos ventos pela janela até o quintal. Seu ir e vir, Tic-tac, 1, 2, 3, 4, 5... contar, contar para quê? Se ainda soubesse o que me move a contemplar, parado, a observar todos passando, com seus carros, em seus dramas de chegar do trabalho prontos para falarem de seus dias, ou não. Olhando e contando, 4, 5, 6,... tic-tac, tempo passa e eu persisto. Todos passam por mim, cumprimentam, vão, vem outros, que também passam, dão bom dia e eu respondo “hum-hum”.
Nas aulas de biologia, via quem eu era. A luz atingia meus fotorreceptores, abriam-se canais de sódio, e lá ia um impulso pelo nervo óptico para minha nuca, saía pela esquerda, passava pela minha orelha e unia-se a um pulso elétrico dizendo “Bom dia, como vai?”. Daí era só seguir mais um pouco, para e dizer “hum-hum!”.
Era dono de mim, de minha vida, meu corpo, contemplava – sabia o porquê. Cogito ergo sun! Fotorreceptores, 5, 6, 7, 8, cóclea tic-tac, faringe hum-hum! Tudo em seu lugar, ritmado e ordenado, exaltados por serem donos de si!
Mantinha os pés no asfalto. Ali, brincando sem me preocupar de ir em casa, para um fútil chinelo de dedo. No máximo, as caridosas árvores cediam-me suas sombras para que eu esperasse um pouco e respirasse. Inspira, expira, 6, 7, 8,...
Já tenho vários pôr-do-sol. Todos os têm. Mas poucos os vêem. Já vi alguns. Laranjas, vermelhos, rosas, o céu numa variação de azul-claro ao marinho. Vi também seus extremos, o nascimento de esferas amarelas gigantes. Podia vê-la sem ter que desviar os olhos. Acho que sempre desafiei o Sol. Um Deus de derivados petrolíferos não deve teme-lo, a não ser que derreta sua criação.
Fazia questão de montar uma cidade inteira, pôr todos os personagens. O protagonista era pequeno, laranja, com orelhas de urso carcomidas e pequenas, olhos alegres. Fiz-lhe uma voz infantil, frágil porém destemida. Ele não estava só, uma pequena gata, cor-de-rosa, de voz meiga era sua namorada. Ela rapidamente se foi. Todos se foram. Persisto.
O interessante de persistir é que o tempo não passa para nós. Ele nos abandona, e acompanha aqueles que estão ocupados demais para percebê-lo.
O devir temporal encontra-se quando seu primo aparece em sua casa, usando uma roupa de abrigo que você reconhece como sua. E ele é 10 anos mais novo... De repente achamos uma foto onde sua pele lisa, cabelos desarrumados e roupa suja de barro se mostram e você nem se lembra de quando foi; 8, 9, tic-tac...
Minha vó possuía três relógios no quarto (tic-tac)3. Dois foram parar na cozinha, do outro lado da sala, numa noite em que dormia lá. O tempo me irrita. Tira toda novidade do mundo, pois olho, vejo, é só tic-tac, ele lá, me olhando, distante, com suas longas barbas brancas pelo chão. A sua córnea esbranquiçada não me permite distinguir o quanto seus olhos eram azuis. A raiz amarelada do cabelo, o que sobrou dele misturado às longas barbas, eram consoantes com a cor das unhas desgastadas. Já não sorria mais. Só me olhava a balançar o cajado, pastoreando o mundo a contar. 10, 9, 8, 7... E eu daqui também enumerava 8, 9, 10. Persisto.


Publicado no Livro Poeta de Gaveta, vol. 10

Olhai o céu



Naquela sala, a luz tênue que entrava pela fresta da janela iluminava todo o ambiente. Haviam poucos móveis a interromper tais ondas luminosas; apenas uma cama, uma pequena cômoda com toda uma vidraria de perfumes, que transformavam a parede em um grande vitral colorido, refletindo as tendências religiosas da cruz que se sobrepunha e guardava o ambiente. E, atingido indiretamente pelas cores da perfumaria, estava um grande espelho emoldurado rusticamente, mas suavizado em sua dureza pela perfeição das imagens que projetava.
Ao entrar em seu quarto, ela esbarrara na porta, esta abrindo suavamente e aumentando a luz no ambiente. Fechou-a, de modo que toda a clarividência sobre a sala manteve-se restrita ao facho da janela, trazendo de volta o vitral antes sobreposto por aquela luminosidade.
Parou em frente ao espelho. Com um simples toque, soltou a toalha que cobria seu corpo nu. Pelo grande espelho, ela pôde visualizar mais plenamente seu belo corpo. A pele alva de sua face enrubesceu levemente, exibindo o pudor de sua rígida educação. Passou as mãos por sua barriga, levou-a a seus seios, massageando vagarosamente em busca de algo escondido. Como não encontrou nada além do familiar, respirou.
Na cômoda pegou um frasco, o abriu e passou seu conteúdo pelo corpo, emanando um característico odor de rosas pelo quarto. Massageava os ombros, levando as mãos pelo pescoço; logo desceu pela barriga e tentou alcançar a região mais extrema de suas costas. Braços, seios, cintura, nádegas. Aos poucos o creme se esvaía de suas mãos pelo seu corpo, indo até o interior das coxas.
Toda a massagem diminuía as tensões corporais, gerando, além da paz após a luta diária, prazer. Era impossível negar todo o prazer que tal ato produzia. Aproximava-se receosamente de seu púbis, o que lhe aumentava agradavelmente as sensações. Conduzida então por seus instintos, alcançou-o.
Em simples movimentos, deitou-se. Passou a se sentir bem, dona de si. Seus pequenos pés estavam esticados. Acariciavam-se mutuamente, em auto aceitação, cumprimentando-se como qualquer casal faria. Acompanhando o brilho da base das unhas, a fina tornozeleira cintilava devido à luz da janela, como se fosse um pequeno vitral dourado, de luzes rítmicas concorrendo com o grande vitral de perfumes.
Os olhos negros, que antes se duplicavam no espelho em imensos fossos misteriosos, agora estavam fechados. Percebia a tênue luz avermelhada, como um mundo todo realizado em sangue e pele, de luzes alegres em intensas variações, um dinamismo pertinente a tal ato. Os finos fios de cabelos negros espalhavam-se pela cama, entregando-se às rendas brancas do lençol.
Porém, em pouco tempo, a aparente calma foi substituída pela coerência entre o que sentia e sua carne. Os músculos passaram a se contrair em ritmo constante. Os lábios inferiores foram repreendidos pelos dentes; o pescoço passou a jogar a cabeça para trás e os cabelos, antes misturados à renda começaram a se mover, formando ondas energéticas de grande amplitude.
Os braços esticados passaram a se contrair, lutando contra sua intenção viva, sofrendo assim paralisias devido à rigidez. E os pensamentos, antes quase que suspensos, virou a sua face para a grande cruz, misturada às cores do vitral, e assim temeu por sua liberdade. Em parcos minutos, um gemido brando libertou os lábios de seu cárcere. Havia chegado ao clímax, aonde seus impulsos se contradiziam com seu pudor e regra moral.
Sentiu-se culpada.
O clima externo à sala era calmo. Lá fora, o céu azul cobria todas as regiões, mas as nuvens ainda mantinham sua fixa posição. Mas a ira divina sempre impõe dinâmica de sua criação. As nuvens foram destituídas de seu lugar, as folhas voaram e tudo se moveu. De repente, a fresta na janela transformou-se em uma grande corrente luminosa e atingira o corpo deitado na cama, em êxtase. Havia sido descoberta pelo céu. E uma nuvem tampou o sol; uma rala sombra a encobriu.
Levantou-se rapidamente e fechou a janela. Coberta agora pela grande escuridão, ficara só. O vitral se desvaneceu, o rosto de Jesus fechou-se. Não havia mais nada na sala, além do Nada.
Entretanto, um simples ponto, uma imperfeição na janela deixou que apenas um feixe de luz entrasse. Este se refletiu no espelho e atingiu um frasco, e seu líquido azul transformou-o em um límpido céu, sem nuvens, livre...

Carne da palavra


A boca, genitália inútil, busca, nos entremeios de seus verbos as saliências dos versos incrustados na grossa crosta de suas pernas em puídas calças de brim azul.

Não há Nada, além do ácido suor a desgostar a língua, e a pujança dos léxicos em suas coxas finamente delineadas, pronta a titubear mesmo a prosa luciferina, carne mesma dos caninos a brincar de vampirismo nas incisivas marcas em minhas costas.

E, no encontro de músculos incansáveis, a obtusa gramática sem rodeios, percorre os veios pálidos pela nicotina das eternas desculpas recitadas no espelho. Me dá um cigarro, louva o poeta e clama a boca, cuspindo a outra um escarro em centenas de lancinantes adjetivos, penetrando e perfazendo pérfidas personificações pertinentes a perversidade da al-cunha atroz, lábil e conundente de língua.

Sexo oral é redundância.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Espaços

Retrato duplo, Lucian Freud


"Enquanto eu penso você sugeriu
um bom motivo pra tudo atrasar.
E ainda é cedo pra lá
chegando às seis tá bom demais
Deixa o verão pra mais tarde"

Los Hermanos


Contra a parcimônia dos minutos
pesam meus pés sobre a mesinha,
colam as costas através do encosto,
estofo-me nos móveis,
enquanto, em olhar, na contra-corrente,
sobrevoo os imensos campos além-nuvens.


Dizem meus pés que o chão se move, circula sem fim
em torno de urgências prêt-à-porter
Mas assim, elevados, cegos dessa fricção
emolduram a paisagem azul que vem com o vento
virando ao revés as folhas de minha agenda,
despreocupada assim com as datas,
num arco-íris branco de vazios por fazer...