domingo, 29 de dezembro de 2019

Avaliação

Um novo ano termina. Olhei para minhas avaliações anteriores, meu desejo de não abraçar o mundo. Porém, terminei o ano como Atlas. Não sei onde jogo fora essa massa esférica de preocupações e compromissos dos quais nunca desejei por completo. Assumir novas prioridades, escapar de destinos que parecem ser um caminho natural, criar novas soluções dentro de um mundo caótico e sombrio.  

Vendo se dá

Quando se olha para dentro, o corpo faz uma torção. A rotação do pescoço não é suficiente, e temos acesso lateral, no horizonte indecifrável, do pouco que de nós podemos vislumbrar. O que vemos é pouco, rarefeito. O olhar arrasta em si uma dose de esforço, de tendões estendidos, cordas afinadas que quase rebentam. Não é fácil.

Olhar no espelho é simples. Mas tudo ali, ao revés, subtende as reviravoltas da carne espessa, e o que vemos é um outro que, inerte, também olha, e pouco vê. Refugiar-se no comum, talvez, se sobressaia como solução mais tranquila.

Assim, frente a impossibilidade da nudez completa, de completar-se em um pleno ver-se-vendo, o outro é uma solução arriscada e simples. Mas há um desencontro, uma refração quando minha imagem retorna desse meio, e o que vejo está desconjuntado, turvo. Vejo-me por outro angulo, que também sou, sem ser. Sou parte do que me dão, me determino sob o jugo de olhares cruéis, solícitos.

Talvez a imagem mais real de mim seja o limite máximo daquela torção, quando transparecem dois narizes oscilantes, fugidios, nessas sombras que indicam ter mais para além do que vejo, e que talvez nunca terei acesso direto. Nosso verdadeiro inconsciente está diante de nossos olhos.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Des-dobro

Carybé, briga de cachorros, 1942


Alvejado
Pelo revés do que sou.
Escorre-me, lancinante
Gotas de quem outrora fui.

Um tiro seco, silenciado,
De palavras não ditas, atravessa
O sujeito que sou, cujos verbos
Só se conjugam no subjuntivo.

Poderia, quem sabe,
No avesso do revés,
Surgir, numa nova volta,
Um novo eu do que fui?