domingo, 29 de dezembro de 2019

Vendo se dá

Quando se olha para dentro, o corpo faz uma torção. A rotação do pescoço não é suficiente, e temos acesso lateral, no horizonte indecifrável, do pouco que de nós podemos vislumbrar. O que vemos é pouco, rarefeito. O olhar arrasta em si uma dose de esforço, de tendões estendidos, cordas afinadas que quase rebentam. Não é fácil.

Olhar no espelho é simples. Mas tudo ali, ao revés, subtende as reviravoltas da carne espessa, e o que vemos é um outro que, inerte, também olha, e pouco vê. Refugiar-se no comum, talvez, se sobressaia como solução mais tranquila.

Assim, frente a impossibilidade da nudez completa, de completar-se em um pleno ver-se-vendo, o outro é uma solução arriscada e simples. Mas há um desencontro, uma refração quando minha imagem retorna desse meio, e o que vejo está desconjuntado, turvo. Vejo-me por outro angulo, que também sou, sem ser. Sou parte do que me dão, me determino sob o jugo de olhares cruéis, solícitos.

Talvez a imagem mais real de mim seja o limite máximo daquela torção, quando transparecem dois narizes oscilantes, fugidios, nessas sombras que indicam ter mais para além do que vejo, e que talvez nunca terei acesso direto. Nosso verdadeiro inconsciente está diante de nossos olhos.

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