Antes
escrevia por ter certo orgulho narcísico de minhas palavras. No início, tais
eram ainda brutas, mas almejavam o requinte dos grandes reinados absolutistas
franceses. Com o fim precoce da juventude, logo situei melhor cada locução, e
quanto mais minha técnica melhorava, maior era a consciência que tinha de minha
ignorância. Eis aí o aprendizado socrático que tive em relação ao saber. O
idiota é justamente aquele que engole um balão. Sua superfície reluz e reflete
ao mundo todo sua distorcida visão da verdade. Tão cheio, tão vazio. O espaço
que ocupa é tão incomensurável quanto o nada que lhe é a essência. O tempo se
encarrega da entropia, espalha as partículas desse conhecimento aéreo, e por
fim, com o balão cada vez mais murcho, passamos a ter mais consciência de que
esse tudo que éramos nada significava. A sabedoria é, pois tão somente a
ciência do vazio de nossas almas frente à plenitude do mundo.
Sartreano,
não? Talvez... Meio ridículo pensar que somos meros sacos a ser preenchido de
bons grãos. Mas ainda esse pensamento me fez refletir que antes era balão cheio
de minha auto-nulidade, e que agora há espaço para outras formas mais brandas
de vazio. Sinto que posso sentar na beirada do abismo, e contemplar a paz de
meu interior ôco, a opacidade da noite de minha alma. Ela agora é capaz de
responder-me, em eco, os trechos finais de minhas meditações, como se estivesse
acompanhando, interessado, meus próprios pensamentos. É tanto si-a-si que chega
a se esfacelar esse eu que vos fala, e as palavras, as imagens ganham vida
própria, formam auroras boreais semitranslúcidas que serpenteiam por seus
movimentos próprios neste céu do que era, nesse nada que tudo fui. Ao deixar de
ser pleno eu, ao se afastar do nada-eu, sobra-me algo, algo este que, quase,
sou.
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